Bikingman Brasil 2021


E então choveu.

Mas antes de começar, me permita ajustar as suas expectativas de leitura: este relato vai ser detalhado e às vezes bastante técnico (ao menos para quem nunca precisou alinhar uma roda com número ímpar de raios, tremendo de frio e sem nunca ter feito isso antes nem em casa). Quanto à minha experiência pessoal, não omitirei nenhum detalhe. Vai ser a verdade nua, crua e, em certos lugares do corpo, assada.

Um pouquinho de água do céu sempre cai.

Antes de tudo

Uma das perguntas que fazem parte do formulário de inscrição do evento é mais ou menos assim: o que você já fez na vida que te faz acreditar que pode participar de um Bikingman?

Em dezembro de 2006, fui de Caloi Supra mais 12 quilos num alforge Curtlo do Rio de Janeiro para a Guarda do Embaú, Santa Catarina. Eu e um querido amigo. Para quem não se lembra, ainda não existia smartphone. Existiam páginas rasgadas do Guia Quatro Rodas que derreteram ali por Ilhabela.

Em 2008, com esse mesmo amigo, o Jared, e sua esposa Cathie (remadora olímpica em Atlanta 96…até que eu tenho uma certa facilidade em me embrenhar com pessoas muito melhores) pedalamos parte do Sul da Islândia.

Depois de anos usando a bicicleta apenas para o meu transporte na cidade, em janeiro de 2020 saí de Penedo sem destino, com outra Caloi de uns 16 quilos mais alforges com uma roupa para cada dia. Roupa normal. De algodão, de brim. Traduzindo: de chumbo. Passei por Mauá, Bocaina de Minas, Carvalhos, Aiuruoca e Caxambu.

Veio a pandemia e ficamos todos de março a julho sem sair de casa. Naquela angústia generalizada, “acendendo” um wafer de chocolate no outro, cheguei a 98 quilos (tenho 1,78m). Fiz a fatídica continha em um site de nutrição e fiquei sabendo que agora era uma pessoa obesa. Imediatamente pedi ajuda para uma amiga querida e fiel: a bicicleta.

A coisa pegou ritmo. Descobri o mundo Randonneur. Descobri um tipo de bicicleta chamado “gravel”, feita para estradas de cascalho e terra. Comprei uma dessas. Descobri onde usar essa bike: em uma prova de 200km saindo de Mogi das Cruzes, organizada por um tal de Vinicius Martins. Completei a prova quase sem conseguir me mexer, e ao me receber o Vinicius me pergunta: já pensou em participar do Bikingman?

Entre a Inscrição e a Largada

De vez em quando eu uso a técnica do “atirar nas estrelas pra acertar na Lua”. Tenhamos em mente que meu objetivo no começo era emagrecer. Meu raciocínio foi simples: se eu fizer esse Bikingman preparado, caso eu continue gordo, realmente tem algo de muito errado na minha tireóide ou coisa do gênero. Já te adianto: não tem. De fato eu fui emagrecendo só de pedalar, mesmo comendo meia caixa por dia do delicioso cereal Crunch de chocolate.

Sou influenciado por uma historinha que meu pai contava quando eu era criança. É a do “Adams, o Óbvio”. Adams sempre fazia as coisas óbvias a se fazer, e sua vida deu certo assim. Na mesma filosofia, e sabendo que o percurso do Bikingman Brasil estava ali na internet, resolvi fazer o óbvio: me inscrever de uma vez, fazer logo o percurso como treino, e ver o que era aquilo.

Fui, caí no quilômetro 495, cheguei com a bike quebrada até Ubatuba no quilômetro 550. Abortei. Já existia um grupo de WhatsApp dos inscritos na prova. Eles acompanharam tudo e me ajudaram muito. Em especial o próprio Vini e o Fred Kastrup, mas também o Nuno Lopes e tantos outros.

Mais tarde recebi mensagem do Flavio Tomiello, ciclista do Rio assim como eu. Eu já sabia dele por um brevet de 1000km em Minas, muito bem blogueirado pelo Leo Pedalando pelo Mundo. À distância eu achava que o Flávio devia ser muito foda. Hoje eu tenho certeza. O Flávio me colocou em um grupo de WhatsApp com nome sugestivo: Cascalho Carioca.

Fizemos várias pedaladas, a amizade foi se construindo. Fomos em mais brevets do clube randonneurs de Mogi. Junto com o Diego Uribbe, do Rio, e o Luisinho Araújo, de São Paulo, fechamos a série Super Randonneur (provas de 200, 300, 400 e 600km). Completamos todas em terreno misto, feito que o clube premia com o fugaz, misterioso e nunca entregue Paralelepípedo Dourado.

Muito sentido com meu fracasso no primeiro treino, operando no óbvio e sempre com pouca noção, fui treinar de novo no percurso completo. É óbvio que o óbvio nem sempre é o melhor caminho, mas isso ficaria ilustrado melhor apenas muito mais tarde. Escrevi também sobre esse treino, que comecei com o Vini e o Fred, e concluí sozinho em 114 horas (o tempo máximo para a conclusão da prova é de 120 horas). Poderia haver algum sinal melhor de que eu era capaz de completar aquele percurso no tempo máximo do que já ter feito exatamente isso?

Nós da Cascalho Carioca (ou CXC) fomos ficando próximos e conhecendo melhor as ideias e planos de cada um para a prova.

Eu, Ernesto, Diego, Flávio e Leo. CXC a 5 minutos da largada.

O Flavio, a meu ver, tem a característica Randonneur clássica. Não se interessa em competir, mas quer completar o desafio bem e dentro do tempo.

O Diego tem também essa pegada randoneira e, eu às vezes penso, também um desejo competitivo que ele ainda não quis explorar mais a fundo.

O Leo Cardoso é a locomotiva-artesão do Cascalho Carioca. Alto e forte, puxa o trem no plano e sobe bem. Ele foi produzindo suas próprias bolsas e acessórios para a prova. Somando essa dedicação fabril a uma filha pequena e responsabilidades familiares, acabou não podendo treinar muito duro. Por outro lado, sabe mexer bem na bike se precisar.

Ernesto é o cicloturista mais puro da turma. Já rodou a América do Sul e Cuba. Entre pedalar mais de 50km por dia e tomar uma cerveja, em geral vai ficar com a segunda opção.

Felipe Coquito também é um Randonneur experiente, tendo feito 200, 300, 400, 600 e 1000km em uma semana, para não falar da Paris-Brest-Paris, evento culminante do randonneurismo. Coquito também gosta de participar de competições, possivelmente com cerveja nas caramanholas.

Na figura de membro honorário da Cascalho (ou o Cascalho Carioca, ou CXC, tudo vale), temos o Nuno Lopes. O Nuno tem seu próprio mundo no ciclismo, é dedicado integralmente a isso, e coordena o Ride Club, um super grupo no Rio. Nuno completou com sucesso a comprida e duríssima Trans Am. Tenha você 2 ou 102 anos de idade, o Nuno vai te chamar de “jovem”.

A 10 dias da prova, surge um novo inscrito com o DDD 21. Ele me escreve falando que tinha lido meu relato do treino, tinha decidido havia poucos dias entrar nessa, e tinha perguntas sobre bolsas de bike. Seu nome de batismo: Gabriel Tavares. Seu nome: Gabo. Fomos pedalar com o Gabo e ficamos convencidos do seu pedigree de aventureiro quando sua primeira piada foi uma ponderação curta porém altamente técnica sobre o funcionamento intestinal no ciclismo. Além de tudo, Gabo é profeta.

Objetivo e Estratégia

Minha meta era simples: baixar meu tempo de 114 para 100 horas.

A estratégia seria parar muito pouco e dormir o mínimo possível até Paraty, deitando ao relento para evitar o tempo de burocracia das pousadas. Depois de Paraty o plano era parar em Queluz para umas 4 horas de sono mais banho, e depois seguir até o fim.

A escolha de itens a levar também seria leve e arriscada: roupa do corpo mais um agasalho simples, bolsas de guidom e quadro, farmácia mínima, bomba de ar simples e pequena, 2 baterias de 10000 mah, celular.

Eu não ia forçar nada nas subidas mas ia fazer as descidas a 80% do risco para aproveitar os embalos.

Alinhando

Fomos de carro Flavio, Diego e eu, dois dias antes da largada. No caminho o já clássico pastel gigante do pé da Serra das Araras. Muito papo sobre a prova.

Coquito e Nuno não puderam ir. Tinham trabalho. Ernesto manda mensagem dizendo que tinha um problema gravíssimo de saúde na família, e que não poderia ir.

Fazemos nosso check-in no hotel. Vemos os banners do BMB. A diversão vai ficando tangível. Em seguida, check-in da bike para a prova. Abraçamos o Vini. Encontro pela primeira vez o Axel, criador do Bikingman. Pergunto para ele em francês tarzânico: “heureux d’être ici?” (feliz de estar aqui?) Ele: “plus q‘heureux!”

Encontramos a Cami Orsato, a Pati Volpato. São ciclistas, vão organizar a prova, e são esposas respectivamente do Fred e do Vini. Sorrisão delas, sorrisão para elas, uma sensação de que aquilo tudo seria também uma família.

César Pupo com seu astral deixou até minha bike mais leve.

Quem faz a conferência dos itens obrigatórios? O Fred. É, é tudo em família. Itens mostrados, bike pesada (14,46kg no fim das contas), kit da prova recebido.

No domingo cedo chegam Leo Cardoso e, para nossa grande alegria, também o Ernesto.

Às 9 da manhã, uma pedalada-passeio dos participantes. Momento legal para nos conhecermos e reencontrarmos. Papo com o Wel de SP, Guilherme de Sergipe, Nilton César de Fortaleza, Daniel da Venezuela, Vini, Fred e turma da Cascalho, abraço no Leo Pedalando pelo Mundo.

Vimos 3 ou 4 bicicletas de estrada no check-in e no giro. Todos se perguntavam se essa ideia de ir com pneus lisos e finos ia dar certo, ainda mais com a previsão de chuva nos 2 ou 3 primeiros dias, justamente os que tinham mais terra.

A Largada

Dormimos Diego, Flavio e eu no mesmo quarto. Diego não pregou muito o olho. Acho que o Flavio dormiu bem, e eu dormi bem. Eu me sentia mais tranquilo por já conhecer o caminho.

Acordamos às 3:30 da manhã. Banho no corpo, café na garganta, chamois na bunda, ligar o GPS, últimos ajustes e alinhar.

A largada foi em blocos de 10 atletas, separados por alguns segundos. Larguei no terceiro bloco, junto com o pessoal do Cascalho Carioca, o Marco Teixeira, e a dupla Liandro e Idan.

Eu havia conhecido o Marco virtualmente quando ele fez o seu reconhecimento do percurso. O Marco hoje tem 50 e tantos anos, e continua firme e forte. Ele foi campeão brasileiro de contrarrelógio na elite. Meses depois do primeiro contato, largamos juntos em um brevet. Ele estava na minha frente no começo desse brevet, uns 300 metros talvez, quando eu vi que pegou o caminho errado. O cara pedala forte, eu não ia conseguir alcançá-lo, então torci para ele se dar conta do percurso logo. Acho que ele acertou depois, mas ele não concluiu esse brevet. Ele não tinha muita rodagem em navegação, isso me preocupava em relação a ele.

O começo da prova passa por dentro de Taubaté. Logo atravessamos a Avenida do Povo, coberta e ladeada por arquibancadas que, mesmo vazias às 5 da manhã, dão todo um clima aos acontecimentos.

Começando a sair da cidade, estava formado nosso gruppetto: Marco puxando, eu, Diego, Flavio, Gabo, e a dupla Bruno e Edu do Rio Grande do Sul.

Alguns quilômetros mais tarde avistei Joab e mais alguém uns 200 metros na nossa frente. Tentei atravessar pra alcançar, ninguém mais foi junto. Acabei voltando ao meu grupo original, apenas mais cansado. Ideia de jerico tentar alcançar o Joab. Para praticamente todos, senão todos os participantes de uma prova de 1000km sem assistência, agir como se estivesse numa prova de estrada normal não faz sentido nenhum. O ganho do esforço pode ser melhor obtido de muitas outras formas. Primeira lição internalizada.

Fui sendo ultrapassado pelos favoritos. Me lembro de ver o Bruno Rosa, Dimitri, Vicky e Leo Pedalando Pelo Mundo passar. Outros favoritos já tinham largado na minha frente e eu não os veria na prova.

Alcançamos o Fred Kastrup. Ele vira pra mim e fala: “ôu ôu ôu, tá indo pra onde? Tá achando que vai chegar que horas? Calma aí.” Fredão já me viu em algumas roubadas e se sente à vontade pra me corrigir.

Logo chegou o Juliano “Rider” Gehrke, e a primeira subida. Léo Cardoso já tinha ido, Diego já tinha ido. Na minha frente foram desaparecendo o Flavio, o Juliano e o Fred, lado a lado. Fred tão calmo antes, agora parecia cheio de pressa. Pra mim ele só queria ficar mais um tempo com o Juliano. Isso tudo de que estamos falando aqui é amizade e amor.

Na primeira subida, de asfalto, me lembro de parear com a dupla Bruno e Edu. Gabo um pouco para trás. Muito mais para a frente andei junto com Luisinho, depois Pupo e Wisley. Segui Wisley, de longe, numa bifurcação. Caminho errado, meia-volta.

A chuva nos acompanhou desde a largada. Aqui, no quilômetro 40 ou 50, ela apertou. No quilômetro 63 mais ou menos, começa a terra. Chuva deixando o terreno mais custoso de superar. Continuo com Bruno e Edu, também vejo Mixirica, Jéssica, a colombiana Angie, Nilton César. Estou mais lento que eles um pouco. Estou pesado: 2 caramanholas de 900ml com Gatorade, 1 Gatorade no bolso, 1 Toddynho e 1 Nescau na bolsa de guidom. Bastante comida, alguns sachês de gel. Eu não iria parar tão cedo.

Km 74, vejo o Leo Cardoso com a roda na mão. Furo. Perdeu o tubeless, teria que ir na câmara de ar. Queira ou não esse acontecimento tem um custo mental: você contabiliza que só tem mais uma câmara, depois é remendar debaixo de chuva.

Três quilômetros depois, vejo Willians Marcolongo segurando a corrente. Algum elo abriu, certeza. Tudo bem? Tudo bem. Boa sorte, vai na fé.

Não muito depois vejo o Dimitri, apontado como um dos maiores favoritos, pedalando no sentido contrário ao meu. Por um instante pensei que eu tinha me perdido. Não, eu conheço esse caminho. Pergunto para ele se está tudo ok e ele faz com a mão o gesto de uma faca cortando a sua garganta. Ele estava fora dessa.

O Pupo não só me viu do Bar do Trevo como tirou até foto.

Chego ao Bar do Trevo. Muita gente parada ali. É um bom ponto para uma pausa, eu mesmo parei ali nos treinos. Cruzo olhar com o Axel, vejo Pupo também. Mas não paro. Marco Teixeira sai do bar na minha frente e vai sumindo.

Nesse trecho, pela primeira na vida fiz xixi de cima da bike. Foi simples na verdade: você fica em pé, abaixa o bretelle (bermuda), aponta para o lado e manda ver. Meu vocabulário de modos de realizar necessidades fisiológicas ainda se expandiria mais durante a prova.

No final da primeira terra, vejo o Wel fora da bike. É normal uma parada na transição de pisos, mas ele está ajeitando o joelho, parece. Ele caiu a 100 metros do fim da terra. Nada sério, felizmente.

Passo pelo curto trecho de asfalto e paralelepípedos, e logo começo a segunda subida na terra. Ali estive muito com o Pupo, o Wisley e o Luisinho. Pupo ia imitando a Marília Gabriela. Tomei uma aulinha deles de como andar em poças de lama. Houve uma alteração nesse trecho em cima da hora, virando à esquerda antes de chegar no topo. Penso que o Vini quis eliminar um trecho corta-pneu, cheio de pedras no começo da descida. A prova recomendava pneus 35mm que realmente teriam dificuldade ali. Por outro lado, com a chuva tivemos um novo lodaçal para transpor — junto com uma cavalgada coletiva…passamos por inúmeros cavalos e cavaleiros usando imponentes e invejáveis capas de chuva.

Fomos seguindo por um caminho lindo que vai dar na Cachoeira dos Pretos. O céu foi clareando, e um Sol forte apareceu. Na chegada ao asfalto, desci da bike pela primeira vez. Estávamos com 140km de prova. Protetor solar, chamois, limpeza e óleo na corrente.

Primeira descida da bike. Qual o meu número?

Passei por Joanópolis direto. Estava me sentindo muito bem, sem forçar nada. Um trecho mais longo de asfalto em direção a Bragança Paulista. Passamos por uma rodovia expressa e no km 180 começa uma subida cruel, a Grande Pirâmide de Bragança. Fui fazendo zig-zag sem vergonha nenhuma, economizando energia. A descida é bem vertical também. Fui no arrojo, logo vi uma nova estrada de terra.

Joab me alcança, vamos trocando ideia e ele me passa as novas: ele e outros tantos, incluindo o Luisinho, tiveram que parar numa oficina em Joanópolis com problemas variados, principalmente de câmbio. Já tinha gente trocando pastilha de freio com 10 horas de prova.

Vamos pedalando juntos, a terra vira asfalto, Joab numa tocada mais forte e digo pra ele seguir em paz na frente. Ele vai abrindo e a estrada vai virando uma longa descida quase em Bragança.

Com Joab uns 200 ou 250 metros na minha frente nessa estrada de mão dupla, ele e eu a mais de 60km/h, sem aviso um carro vermelho atravessa da pista do outro lado, bem na minha frente, e vai por uma perpendicular à minha direita. Ele não me viu, não posso acreditar que tenha visto. Eu estava muito atento e precisei desviar tão forte que entrei na faixa da esquerda, na contramão. Não fosse isso eu teria entrado com tudo naquele carro, e quem sabe o que teria acontecido.

Foi a vez em que estive mais perto da morte que me recordo. Passei raspando pelo carro e notei que meu coração nem chegou a disparar, não senti aquele jato de adrenalina viajando pelo corpo. Mesmo assim senti profundamente aquele momento. Penso que ele influenciou a minha prova e nunca mais vou esquecer essa.

Sigo sem parar e vejo Joab de pé na calçada: problema com as pilhas do GPS. Só assim mesmo para eu ficar parelho com o Joab, o cara pedala muito.

Sobe-desce no asfalto para Piracaia, a noite e eu chegamos. Eu estava bem mais adiantado do que quando fiz os treinos.

Finalmente, no km 220, paro para um açaí e um sanduíche. Foi a minha maior distância da vida sem abastecer nada, nem água. Wel chega na lanchonete também, ele iria pernoitar em Piracaia. Na saída ainda encontrei a Jéssica, que também ia dormir por lá.

Primeiro abastecimento com 220km em Piracaia.

Dando um confere no celular, vi mais sinais do estrago que a prova começava a fazer: Leo tinha ficado sem nenhuma câmara de ar reserva e sem dois raios. Isso em Bragança Paulista, onde a prova não chega a um quinto do total. Ernesto tinha tomado uma mordida de cachorro e precisava ir a algum lugar tomar antirrábica. Ambos precisaram abandonar. Os ciclistas que vieram de bicicleta de estrada começaram a abandonar, e nenhum chegaria ao quilômetro 400.

Eram 8 e pouco da noite quando peguei a estrada para Igaratá. Acho que fiz o asfalto todo sozinho. Na terra, alcancei algumas pessoas: dois ou três estrangeiros, talvez também o Liandro e seu parceiro Idan, e sem dúvida nenhuma o Júnior Gonçalves e o Marco Teixeira.

O Júnior é difícil de passar batido: conversador, engraçado e parece ligado no 220 o tempo todo. Ele vai pedalando e fazendo reportagens para seu canal de YouTube, chamado O Segredo é Girar. Fomos juntos um tempo, nós e o Marco.

O caminho para Igaratá teve seus momentos de dificuldade. Não houve Lua em momento nenhum, tanto pelas nuvens quanto pela fase lunar mesmo. Escuridão completa. Eu conhecia ali e sabia que o chão não tinha pedras nem curvas fechadas. Descia sem economizar. Admito que a bicicleta deu umas pancadas em alguns buracos-surpresa. Mas era uma corrida, eu queria baixar meu tempo e tinha entrado disposto a arriscar.

Na saída de Igaratá passo por um atleta gringo, confesso que não sei quem era. Ele parou na cidade, parecia indeciso. Falei para ele que “la carretera” (chutei uma língua, se bobear ele era alemão) estava a 500 metros dali, e depois melhorava. Tentei encorajá-lo a seguir. Na verdade a carretera ficava a 50 metros dali, e melhorava muito mesmo.

Aí a coisa rendeu. Asfalto perfeito, acostamento perfeito, descidas longas. De tanto apoiar todo o meu peso no pé esquerdo, precisei parar num ponto de ônibus e fazer uma auto-massagem. Desta vez ficou claro pra mim esse vício de postura que corrigi em seguida e simplesmente não tive mais dores físicas na prova. Do coração tive sim, mas vamos pedalando.

No ponto de ônibus o Júnior e o Marco me passam, eu parto, me reúno com eles de novo.

Chega a “Paris-Roubaix” do Bikingman. Uns 7 a 10km de paralelepípedos. Diferente da Paris-Roubaix verdadeira que é muito plana, nosso querido Vini selecionou um “paralelo” com tudo a que temos direito: muitas subidas e descidas.

E foi no km 303, na maior descida em paralelepípedo, descendo como se não houvesse amanhã, que ouvi um som atrás na minha bike: “tlín”. Na hora eu sabia: um raio da roda traseira tinha abandonado a prova.

Num pedal de sábado com os amigos, usando freio a disco, perder um raio não é nada. A chance de chegar em casa é praticamente 100%. Eu mesmo tinha perdido um raio no km 105 de um brevet de 400km em terreno misto, segui com cuidado e completei a prova.

Eu poderia consertar o raio em alguma oficina, mas o dia que estava nascendo era feriado de Finados. Aí seria mais difícil. Eu mandei mensagens perguntando sobre mecânicos no caminho, recebi dicas inclusive, mas decidi seguir na estratégia de risco: ia tocar a corrida como se nada tivesse acontecido até Ubatuba (prevista para o terceiro dia) e consertar lá, na excelente Trilha Norte.

Minha estratégia foi muito inspirada no Nuno. Indo de carona com ele para a outra corrida de bike que participei (sim, este Bikingman foi apenas a minha segunda corrida), ele falou que vai para todos os eventos com o mínimo dos mínimos. Sem câmara de ar em provas de estrada, com um kit muito básico e um corta vento em brevets, mesmo longos. A minha interpretação dessa estratégia é que ele quer ir bem e sabe que sempre existe uma próxima oportunidade caso o risco não pague. Neste caso, eu já tendo feito esse percurso e querendo me esticar, experimentei essa pegada do Nuno.

E foi pensando no Nuno — ele tinha me contado sobre treinos específicos de dormir em praças — que parei sozinho em Guararema, no quilômetro 284, para dormir. Guararema é linda, e a prova passa por um beco fascinante. É muito fácil passar reto por esse beco, é claro que eu tinha feito isso no primeiro treino. O mais lindo é que, errando, em 30 metros você está na beira do rio Paraíba do Sul. Aí você percebe o erro mas se deleita com um visual e tanto. Eu nasci em Jacareí, vale do Rio Paraíba, passei meus primeiros anos em frente a esse rio. Num sentido mais profundo do que posso articular, é o meu rio. É o jeito de ser das pessoas que cuidaram de mim quando eu era bebê, as histórias de amor que me contaram, mesmo muitos anos mais tarde. Ter atravessado com a bike e amigos novos a foz desse mesmo rio em outra ocasião, demarcando a fronteira Rio-Espírito Santo. Minha própria trajetória de vida, indo morar no Rio criança. Eu tinha que dormir ali, tinha que ficar ali um pouco.

Encostei num banco de praça, coloquei a bike perto, apoiei a mão nela para sentir qualquer vibração se alguém mexesse, e apaguei. Uma dica para os incautos: não durmam debaixo de árvores, porque chove em você mesmo com dia seco.

Acordei uma hora e quinze depois, com o barulho dos pássaros e céu claro. Escovo os dentes, estou passando fio dental (eu tenho cáries facilmente) e o Fred passa reto voando pela entrada do beco. Grito o nome dele, ele meio que escuta mas vai que vai. Contei até 50, e lá volta ele. Ele vem a mim, dá um alô, assiste a alguns movimentos das minhas abluções matinais, diz que dormiu em Igaratá, está com frio e vai indo. Eu respondo: vai, vai. Pensei comigo: é corrida a brincadeira agora, depois a gente passeia juntos. Também tinha outra coisa: eu estava com muita vontade de fazer cocô. Num ato Freudiano, deixei minha oferenda na primeira margem do rio Paraíba do Sul.

Passando o beco atravessamos uma lindíssima ponte férrea, um dos lugares mais lindos da prova. Para minha surpresa, tão cedo ainda, o Vini está lá. Trocamos algumas palavras, ele fecha a tampa do meu rolamento dianteiro que estava completamente aberto, e vou em frente.

Lugares que fazem a gente voltar: Guararema.

O próximo objetivo é o PC (posto de controle) 1, em Mogi das Cruzes. Até lá, mais terra e paralelepípedo, porém o dia estava lindo. Eu comecei a sentir os efeitos do pouco sono nesse trecho, o humor caiu um pouco, a energia também, mas a vontade de me superar não.

Cheguei mais ou menos às 8 da manhã no PC em Mogi das Cruzes. Recebido carinhosamente, como todos os participantes, pela Pati e Cami. Elas vivem isso também, elas sabem. O PC é um hotel Íbis. Já com o processo de virar mendigo em andamento, descalço, sujo e miserável, tomei café com o Axel e a Cami. Bons papos, um momento de calma, e bora arrumar tudo para seguir.

Chegando no PC1 com o Bruno Rosa. Ele de café tomado, eu ainda não.

Já saindo, vejo um rapaz próximo, falando de alguém que estava na liderança da prova quando sua bike essencialmente desmontou. Na única vez que eu conferi o mapa da prova no dia anterior, eu tinha mesmo visto o nome dele bem na frente: André Froes. Eu nunca tinha ouvido falar desse cara, que monstro. Perguntei para ele: você está falando do André? Ele: sim. Eu nem falei mais nada, minha expressão de tristeza veio sozinha. Subi na bike e só uns 10km depois me dei conta de que aquele rapaz limpo e com cara de triste era ele próprio o André. Dias mais tarde nos falamos e realmente era ele.

Segundo Dia

De Mogi o próximo grande objetivo é Salesópolis. Foi onde dormi na segunda noite dos meus dois treinos. Hoje eu queria chegar lá com tempo de sobra para ir em frente.

A prova passa pela nascente do rio Tietê no km 355. É lindo o lugar, mas desta vez não parei. Ainda tinha um bom chão, chegar na rodovia, mais 50km de terra ao redor da represa até chegar em Salé.

Ao chegar na terra para Salé, o Sol foi virando chuva novamente. Acho que fiz muitos quilômetros sem ver ninguém da corrida. Os primeiros 20km são mais planos e o sono foi batendo. Quando cheguei na cabine da Sabesp, mesmo com uma chuva fina, pedi autorização para o vigia e dei uma esticada. Deviam ser umas 11 horas da manhã, dormi ali durante uma hora mais ou menos.


Abri os olhos e vi o Luisinho chegando. Ele parou e ficou conversando comigo e com o vigia da Sabesp enquanto eu arrumava minhas coisas. Falou que vinha com o Flavio, porém a natureza o convocou para um pit-stop. Luisinho falou também que o Diego vinha vindo um pouco atrás.

Segui com o Luisinho pela parte mais difícil dessa estrada, inclusive pela parte em que, tecnicamente, é quase impossível não empurrar. Mais tarde o Juliano Gehrke falou que “zerou” a prova toda, sem empurrar. Deve ter sido o único. Eu fui recebendo essa clínica de mountain bike do Luisinho, anotando mentalmente as escolhas de linhas e as distribuições de esforços. A gente pode até pensar: é uma bicicleta, o que tem de tão complexo nisso? A resposta é: muita coisa.

Quando a estrada fica mais fácil e linda, beirando a represa, eu quis tirar uma foto ali com o Luisinho. Ele tinha me enviado mensagens várias vezes nos últimos meses para ir nos brevets mistos. Ali nos conhecemos. Um desses ele completou faltando apenas 9 minutos do tempo limite, de um total de 27 horas. No fim, nós dois mais o Diego concluímos a série e éramos amigos. Mas o Luisinho estava forte, tinha aberto distância, e não ouviu meu chamado.

A chegada em Salesópolis começa com uma espécie de ponte sobre a represa, passagem muito bonita. Depois uma sequência de subidas, tudo na terra, é claro, uma pequena descida, o asfalto vem e estamos na cidade.

Técnica é técnica.

Encontrei Luisinho e Junior almoçando no Mercado Municipal de Salesópolis. A cidade é charmosa, e o mercadinho também. Junior mostrou a perna inchada. Ele tinha sido picado por uma abelha, estava com dor. Coloquei a mão na testa dele: febre. Diego chega, depois Flavio.

Com variadas forças, estratégias e desejos na prova, nos reencontramos em Salesópolis.

Terminamos de almoçar, hora de um trato nas bikes. Lubrificação nas correntes, Diego troca as pastilhas de freio.

Pensamos com o Junior sobre o que ele deveria fazer do seu estado de saúde. No fim ele decidiu descansar um pouco em Salesópolis e ver se melhorava. Estávamos apenas no segundo dia. Eu mesmo tinha saído de Salesópolis no terceiro dia do treino e chegado ao final dentro do tempo.

O tempo estava bom, todos cansados porém animados, lá fomos nós rumo a Ubatuba. Do km 385 ao 550. Saímos Flavio, Diego, Luisinho e eu às 4:15 da tarde. Essa estrada tem mais uns 60 quilômetros até cair na rodovia Tamoios. No ponto mais alto ela passa por uma nascente do rio Tietê. Logo no começo das subidas vejo todo mundo em pé e fazendo força. Não era a minha intenção, e além de tudo os 3 pedalam mais do que eu. Falei para eles irem na frente.

Os quilômetros foram passando, o dia foi caindo, as nuvens chegando e se transformando em chuva e neblina. A estrada não tem acostamento. Notei que minha luz traseira tinha apagado muito antes do tempo previsto. Tentei reacender e nada. Mau sinal. Eu só tinha trazido duas. Teria que usar a única que funcionava e economizar onde pudesse, tentando recarregar nas passagens de estradas de terra que são mais lentas para os carros.

Algumas horas se passaram e eu estava encharcado. Quase chegando na Tamoios vejo o Bar da Rosana e, na porta, o trio Flavio-Diego-Luisinho. Pelo tempo, calculei que eles tinham aberto uma boa distância de mim, parado para um café e agora estavam saindo de novo. Sendo mais fortes, logo me alcançariam, e idealmente iríamos juntos, porque com aquela chuva a coisa estava perigosa. Segui sem parar.

Cheguei na entrada da Tamoios debaixo de mais chuva. A tela do Garmin não respondia ao toque, e havia muitos quilômetros ele não me avisava do caminho, apenas atualizava o mapa. Puxei o celular para ligar a navegação pelo app RideWithGPS: muito molhada, a tela nem passava pelo reconhecimento facial nem me permitia digitar a senha.

Esperei a turma alguns minutos. Nada. Haveria ainda uns 8km de asfalto na Tamoios, depois os 58km de terra do bairro de Vargem Grande. É uma estrada linda, margeando uma nascente do Rio Paraíba do Sul. Ela começa tranquila, e após o quilômetro 30 vai se tornando feroz. As subidas são curtas e muito duras. A qualidade do chão varia em função de quanta chuva caiu lá antes de passarmos. Estava chovendo havia semanas na região. Eu mesmo havia passado ali 3 semana antes, já debaixo de chuva. Essa estrada acabou com o meu primeiro treino, numa queda aparentemente boba mas que quebrou a minha gancheira de câmbio.

Eu precisaria estar com toda a água nas garrafas pra atravessar aquilo à noite: o que tem de populado nesse trecho são apenas vilarejos, e eu não sabia se encontraria algo aberto por lá tarde da noite. Decidi seguir mais um pouco na Tamoios, sozinho mesmo, até o pedágio. Lá pedi água e consegui. Pedi um pano seco e ninguém tinha. Durante esse tempo, deixei a bike com o farol piscando virada para trás, na esperança de ser visto pelos amigos caso eles passassem por mim. Fiquei ali uns 20 minutos ou mais. Nada deles. Aquele pedágio não estava promissor e eu já começava a pensar que meus amigos tinham me passado sem ver.

Segui um pouco mais, atrás de um posto de gasolina onde tomar um café quente, porque eu já estava tremendo de frio. A visibilidade era muito baixa, na velocidade a chuva batia forte. Se eu saísse da estrada seria difícil que meus amigos me vissem, mas agora eu precisava me aquecer.

Achei um posto chamado Espigão. Tudo fechado, só um rapaz ali fazendo algo que eu não entendi. Perguntei se ali teria algum abrigo para eu ficar durante um tempo. Não. Fiz outras perguntas. Nada que trouxesse esperança. Perguntei se existia um outro posto mais à frente. Sim. Do outro lado da estrada, eu teria que passar desse posto uns 2km, e quando a divisória de pistas acabasse, voltar os 2km. Era o jeito.

É preciso fazer muitas perguntas nesse microcosmo de vida que é um Bikingman. Perguntas para os outros e para nós mesmos. Cada situação, por mais inusitada e complicada que pareça, tem diversas soluções possíveis. Às vezes sabemos o que fazer mas não temos a técnica, às vezes não conectamos pontos que mais tarde ficam óbvios, e na verdade quase sempre encontramos alguma solução. O mesmo para as pessoas que encontramos: elas não estão na nossa situação. Precisamos fazer perguntas às vezes esdrúxulas e montar nosso quebra-cabeça até que um plano salte aos olhos.

Cheguei no posto Shell, corretamente batizado Posto Neblinas. Não se via mesmo um palmo à frente. Entrei com bike e tudo no restaurante, derretendo lama para todas as direções. Pedi um Nescau quente. Vi um fogão a lenha atrás do balcão. Pedi para ir perto dele. Me permitiram. Fiquei ali uns 5 minutos sem pensar.

Uma vez requentado, foi ficando inconcebível entrar na estrada que vai pelo topo da Serra do Mar naquela noite. Mandei mensagens para os amigos que estariam próximos dizendo onde estava. Leo respondeu que o Diego tinha seguido para a terra, e que o Flavio vinha atrás. Engoli em seco.

Para eles não havia mais volta. Ou seguiriam a duras penas até sair do outro lado, ou parariam em algum canto até a situação melhorar. E eu só saberia no dia seguinte, porque onde eles estavam não tem internet.

Mentalizei que eles e todos que estavam ali ficassem bem e comecei a pensar na minha vida. Saí do restaurante: mesma chuva e frio. Descobri que ali fecharia em poucas horas. Perguntei para a caixa do lugar se teria algum canto para eu deitar até amanhecer. Ela disse que ali não, mas que o seu Zé, frentista chefe do posto, era um “homem de bom coração” e teria um lugar para mim. Saí no frio e seu Zé apontou para um canto completamente inundado de chuva e exposto ao vento. Insisti se não teria algo fechado, um depósito, um banheiro. Fui baixando a proposta e seu Zé insistindo que as pessoas ficavam ali no canto molhado quando precisavam. Voltei ao restaurante e, mesmo sem fome, pedi uma janta. Precisava garantir energia caso a coisa ficasse dramática.

Jantei e fui conversar com a caixa novamente. Ela vestia um casaco violeta, e talvez numa viagem lisérgica achei que ela tinha autoridade ali, baseado numa memória altamente questionável de que, na Roma antiga, os poderosos vestiam púrpura. Faltou eu questionar se isso se transmitiu pelas gerações até aquele posto na Tamoios, mas posso te adiantar que não, ela não mandava porra nenhuma naquele estabelecimento.

Papo muito improdutivo com ela, eu já estava ali há 2 horas, resolvi implorar para o seu Zé. Seu Zé impassível. Eu literalmente implorei. Nada. Ao lado dele, uma frentista ouvia tudo. Ela perguntou se eu não tinha conversado com o pessoal do restaurante. Eu respondi que sim, tinha falado com a moça de roxo no caixa. A frentista me olhou com um olhar indefinível, mas que me induziu as outras duas perguntas: “ela não é a gerente? Quem delas é a gerente?” A frentista: “a gerente é a de casaco rosa”. Grrrl power.

Precisei de um bocado de conversa com a moça de rosa. O nome dela era incomum, não anotei e depois esqueci. Ela era brava. Depois de ouvir negativas algumas vezes, eu decidi simplesmente ficar sentado no restaurante e vencer pelo cansaço. Já com as luzes do lugar apagando, recebo uma mensagem do Gabo dizendo que estava no Posto Espigão. Eram dez e meia da noite. Mandei instruções de como chegar onde eu estava, e as coisas aconteceram rápido.

Levantei os olhos da tela e a moça de rosa me diz rispidamente: “olha, eu vou deixar o senhor ficar aqui. O senhor não tem para onde ir e eu não posso deixar o senhor lá fora nesse frio. Minha loja tem alarme de movimento, se eu não ligar esse alarme eu perco o seguro da loja. O senhor vai ter que dormir no banheiro feminino. E eu vou ter que trancar o banheiro, o senhor vai precisar ficar trancado nele até as 6 da manhã, que aí chega alguém pra abrir a loja. Tudo bem pro senhor?” Poucas vezes eu agradeci alguém tanto. Esse era o meu nível de respeito, por que não dizer medo, da alternativa, de me embrenhar na “Estrada de Vargem” naquelas condições. A moça de rosa: “agora corre lá no banheiro masculino pra fazer as suas coisas porque eu tenho que sair agora pra buscar minha filha.” Na hora eu não prestei atenção ao requinte de ter que usar o banheiro masculino quando eu iria passar a noite inteira no banheiro feminimo. Um misto de enorme alívio, e preocupação pelo Gabo que estava vindo até mim. Quanto tempo ele ia demorar para chegar? Resolvi ir no banheiro e fazer tudo devagar para ganhar tempo. Eu estava apavorado de dizer pra ela que tinha uma surpresa, tinha mais um sujeito imundo para passar a noite ali, medo de então ela enxotar ambos pra fora. Na minha cabeça naquele momento, o Gabo aparecendo lá “de surpresa”, tudo tinha mais chance de dar certo. Em retrospectiva, essa linha de pensamento que criei é o primeiro sinal muito claro de que meu raciocínio estava ficando ruim. Sempre que posso eu falo a verdade para as pessoas o quanto antes, encaro as consequências, e quase sempre as coisas vão bem porque as cartas, uma vez postas na mesa, têm poderes mágicos.

Depois de um bom tempo no banheiro, ouço a moça gritando: “senhor, por favor, eu tenho que ir”. Saí bem devagar. A moça: “olha, eu mudei de ideia.” Gelei. “O cheiro do banheiro feminino está desumano. Eu vou colocar o senhor naquela parte ali na frente da loja.” Perguntei: “é protegido do frio?” Ela: “é”. Sem nem falar, fui atrás dela olhando para a porta da loja e esperando o Gabo dar uma linda surpresa para a moça de rosa. Nada do Gabo. Ela pediu para eu pegar a bicicleta, o que fiz na velocidade de uma lesma sob efeito de ansiolíticos. Ela insistiu, já falando alto: “senhor, pelo amor de Deus, eu tenho uma filha esperando em Caraguá, me deixa ir embora, coloca essa bicicleta aí dentro e vai dormir”. Engolindo em seco, simplesmente obedeci. A sala era vazia, envidraçada da altura do peito para cima, o vidro com aqueles adesivos cheios de furinhos que normalmente nós vemos em para-brisas traseiros de táxis, com alguma propaganda impressa. Os vidros eram colados, não corriam, e pelo menos eram virados para a frente da loja, me deixando entrever o posto de gasolina. Olhei para o chão do recinto, e além de goteiras vi uma pilha de caixas de papelão abertas, que entendi serem o meu colchão para a noite. Em cima do colchão havia um cobertor delicioso e um agasalho estupendo, cortesia da moça de rosa. Olhei para trás, ela rapidamente disse tchau, trancou a porta da sala, ainda empurrou duas mesas e as encostou por trás da porta, e desapareceu. Ela tinha medo também, e ela tinha bom coração.

Dez ou quinze minutos depois, escuto a voz do Gabo. Chamo por ele, pergunto como ele está, tudo bem com ele, explico minha situação, peço muitas desculpas. Ele parece aceitar. Digo que posso passar papelões pela fresta das vidraças. Ele responde que não adiantaria porque os papelões iam ficar encharcados, mas que ele estava vendo uns tapetes de borracha que serviriam melhor como isolantes térmicos. Em instantes o Gabo tinha lido muito melhor aquele ambiente do que eu em muito mais tempo. Experiência e provavelmente mais talento.

Com o colchão e o casaco que ganhei da moça de rosa.

Fiquei remoendo minha falta de coragem, e não ia pegar no sono de imediato. Decidi abrir uma das 3 mantas térmicas que vinha carregando comigo. Uma manta térmica é pouquíssima coisa além de um papel laminado do tamanho de um cobertor curto. Ela mantém as pessoas minimamente aquecidas em situações de emergência porque rebate o calor do corpo como um espelho. Vesti a manta térmica pela primeira vez na vida. Evidente que eu devia ter feito isso antes, dormido com ela duas horas que fosse na varanda de casa, depois fazer o mesmo fora de casa. Treinar isso. Mas não, eu não tinha treinado a manta. A manta em si não tem mistério, o importante seria entender até onde ela vai, do que ela é capaz de me proteger para aí sim arriscar se possível. Isso tudo eu comecei a fazer ali na prova mesmo. Na situação em que estava agora eu não iria me supliciar dormindo apenas com a manta, que faz muito barulho ainda por cima, quando tinha um cobertor felpudo ali do lado. Deixei a manta próxima e peguei o celular para mandar notícias para a família e saber do paradeiro dos amigos.

Os amigos tinham entrado na Estrada de Vargem. Mais tarde eu soube que eles estavam apenas entrando no Bar da Rosana quando eu passei por eles. Eles tinham aberto pouquíssima distância de mim. E, quando eu passei por eles, eles na verdade gritaram para eu entrar ali um pouco também. Como eles ficaram no bar coisa de uma hora, toda a minha espera na Tamoios não foi suficiente para eles me alcançarem. Quando eu fiquei parado no Posto Neblina eles finalmente me passaram, e precisaram dormir em um dos vilarejos da Estrada de Vargem, tiritando de frio.

As notícias chegaram depois, de muitos outros que passaram aperto no Inferno de Vargem: Pupo e Wisley dormindo no frio, Fred sendo salvo por um morador local que tinha uma garagem, Vicky (que completou o extra-duro-duríssimo IncaDivide) declarando que “não valeu a pena” passar ali naquela noite, seu marido Bruno que teve hipotermia.

Diego despertando no Inferno de Vargem.

Acordei às 5 da manhã. Gabo tinha escrito que tentou ficar no posto, mas o frio estava insuportável até para ele. Ele acabou entrando para Vargem, achou um coreto com telhado alguns quilômetros adentro, e dormiu ali.

Hotel do Gabo no Inferno de Vargem com cavalo-vigia-noturno.

Meu relógio intestinal tinha precisão suíça: 5 e 15 da manhã sem conversa. E foi às 5 e 15 que o urubu bicou. Não foi num crescendo, o alarme foi instantâneo e os fatos, irrevogáveis. Sim, eu tentei lutar. Durei quatro ou cinco fortes contrações, demonstrando a sabedoria da natureza em fazer da mulher parturiente. Na sexta contração olhei aquela brilhosa manta térmica, a estendi como uma canga na praia do Leblon, mirei no meio e fiquei muitos quilos mais leve. Meu último lenço umedecido tinha ficado em Guararema. Me locomovi como um caranguejo severamente perneta até meu colchão. Rasguei várias tiras de papelão, que usei mais como uma concha de sorvete do que qualquer outra coisa. Se limpar com papelão precisa ser feito meticulosamente, sob pena de mais empurrar do que remover matéria fecal. Digamos que tive sucesso na empreitada. Embrulhei tudo na manta térmica como um funesto Ovo de Páscoa, usei todas as minhas sacolas plásticas tal qual concreto e chumbo para o dejeto atômico, e depositei o ovo no canto oposto ao meu no recinto.

Fui me aprontando para que pudesse sair do meu cativeiro tão logo saísse meu habeas corpus. Apenas às 6:25 alguém apareceu. Pedi para a senhorita abrir a porta da loja para o posto de gasolina, saí a pé com meu embrulho e o desovei em uma lixeira externa. Voltei, me recuperei no banheiro, agradeci por tudo, pedi desculpa por qualquer coisa e fui embora do restaurante sem olhar para trás.

Os ciclistas experientes têm uma espécie de lista de itens a checar antes de começar a pedalar, seja saindo de casa ou reiniciando uma viagem. Pneus furados ou com grampos, espinhos, vidros. Óleo na corrente. Freios. Alguma folga no guidom ou garfo dianteiro. Trocas de marchas. Eu não posso dizer que faço tudo isso a cada saída. Também, não sou tão experiente, portanto ainda não sofri todos os reveses que uma bicicleta pode proporcionar. Apesar do tempo perdido desde Salesópolis, eu estava com a minha meta de tempo alcançável. Estava apertado mas dava. Eu tinha pressa. Conferi o pneu dianteiro, e estava um pouco baixo. Peguei a bomba de ar no fundo da bolsa e rapidamente dei uma pressão. Sei que não enchi o pneu traseiro. Não me lembro de ter olhado ou tocado nele nessa hora. Certas coisas vão ficando automáticas, seja olhar a altura do pneu estando fora da bike ou pedalando, seja apalpar o pneu ao descer da bike. Eu posso ou não ter conferido o pneu traseiro, mas não me recordo.

Voltei para a Tamoios sob a mesma chuva e neblina da noite anterior, agora com a luz filtrada do Sol. Era muito melhor. Eu estava na contramão na Tamoios, faltava muito pouco para penetrar na Estrada de Vargem, segui com cuidado por aquele lado mesmo. Ali é uma obra eterna. Sem acostamento, acabei fazendo um Mountain Bike no terreno cavucado pelas máquinas. Lembrei da minha primeira MTB (em 1990 eu não via essa abreviação por aí) e como eu aprendi a gostar de tudo isso pedalando por uma orla do Rio totalmente revirada e remexida na grande reforma para a Eco 92.

Minha bolsa de guidom quase totalmente descosturada.

Inferno de Vargem

Finalmente entrei na Estrada de Vargem. De dia eu não tinha medo, mas muito, muito respeito. Seria minha quarta passagem por lá, a segunda com chuva mas nunca com tanta chuva. Já passei com ela completamente seca também, e a história é muito diferente. Ela é uma linda e pacata estradinha ao longo de um rio, mesmo que tenha subidas bem puxadas. Hoje seria pancadaria.

A Estrada de Vargem começa bem plana. No seco é possível render bem os primeiros 20km. Hoje esse começo já era uma planície lunar, o barro cor flicts me obrigando a desviar de crateras ao melhor estilo dos videogames antigos. São coisas transponíveis, mas que vão cobrando seu preço em energia mental.

Passei pela primeira vila, a maior da estrada, uma cidadezinha quase. Eu não ia parar. Eu larguei em jejum, com um Snickers, duas paçocas e dois géis, e queria parar apenas em Vargem Grande, com 45km bem duros no dia. Passei pelo Júnior e pelo Marco sentados do lado de fora de uma padaria. Aquela saudação rápida porque eu estava numa descida. Abri o Snickers e fui saboreando.

Segui mais um bom tempo andando rápido e bem. As horas de sono no xilindró tinham devolvido forças às minhas pernas. Cheguei na próxima vila e vi bem de longe outro ciclista, quase no topo de uma subida empurrando a bike. Fui me aproximando. Era o Gabo. Ali ele me contou que tinha dormido com a proteção de um cavalo que não saiu de perto dele, poucos quilômetros atrás de onde estávamos. Pedi desculpas mais uma vez por não ter podido abrir minha cela para ele na noite anterior. Ele pareceu sincero em seu perdão. Segui em frente no meu ritmo, Gabo montou na bike mas nos distanciamos um pouco.

Mais uma meia-hora, passo a vila que tem uma mesa de sinuca numa taipa coberta, lugar que parecia relativamente bom de parar em uma emergência. Eu fantasiava dormir ali porque já dormi em outras mesas de sinuca na vida, e sempre foi ótimo. Depois eu soube que Diego, Luisinho e Flavio dormiram, ou tentaram dormir, exatamente nesse ponto. Eles não deram muitas estrelas para o hotel não, e já tinham feito check-out havia muito tempo.

A partir daquele ponto a coisa começa a encrencar. O ponteiro altimétrico sobe rápido. Não se vê mais ninguém. Naquele clima, o chão vai virando areia movediça. Eu iria agora muito devagar, a primeira preocupação era não cair da bike. Segui com todo o cuidado do mundo, inúmeras vezes saindo do selim e atravessando piscinas de lama a pé. Não era só lama: as folhas caídas e cozidas, cocô de vaca diluído, e o caldo da bruxa ainda escondia pedras pontiagudas por debaixo.

Uma curva para a esquerda no lodaçal. Meu pneu traseiro patinou, caí em câmera lenta para a direita. Nota zero no salto ornamental: entrada muito assimétrica com um splash inaceitável para os jurados. Caí de ombro, o ombro protegeu a bike. Olhei o câmbio e desta vez o Inferno de Vargem não tinha me derrotado. Levantei ainda mais imundo, com menos um ponto de energia mental.

Eu soube de algumas quedas ao longo da prova. A minha agora, a do Wel, Luisinho falou de pelo menos 2 rolas que tomou, entre outras. Não machucando muito a gente ou a bike, custa um pouco da nossa autoconfiança e seguimos para recuperar. Quando a coisa é séria, tudo pode acontecer. A essa altura eu já sabia do atleta 103, o colombiano Javier, que tinha caído feio no primeiro dia e precisado do resgate de bombeiros. Ele seguiu para o hospital e em poucos dias teria alta. Um alívio. Todos os ciclistas são irmãos e irmãs, o risco e os prazeres da coisa fazem ser assim.

Indo tão devagar rumo a Vargem Grande, e caindo ainda por cima, fui alcançado pelo Gabo. O Gabo vinha fazendo uma corrida excepcional na estratégia dele. Ele queria concluir. Estava administrando sua energia e riscos. Desnecessário dizer que ele sabe pedalar, todos ali sabem. Era bonito ver como diferentes expectativas, forças, estratégias iam resultando em encontros ao longo da prova. De algum jeito certos vetores se anulavam e estávamos agora ali emparelhados.

Falei para o Gabo que aquele trecho exato já tinha acabado com um treino meu e que eu iria como uma tartaruga. Ele entendeu e seguiu só um pouco mais rápido, o suficiente para sumir em minutos.

Mais uns 10 ou 15 minutos e o Júnior me alcançou. Não me lembro se o Marco estava junto ou vinha logo atrás. Perguntei do estado de saúde do Júnior e ele me disse que a dor e febre continuavam, que estava à base de remédios. Tudo isso com a voz mais animada do mundo. Eu via a perna dele, estava mesmo muito inchada. Eu imaginava o pique do Júnior numa situação boa de saúde.

Estava ao lado do Júnior quando senti a bicicleta diferente. Na hora eu soube e falei: “Júnior, furei. Segue aí.” Desci da bike e enchi o pneu traseiro. Há 8 meses eu uso o sistema tubeless, que abre mão das câmaras de ar em troca de um líquido emborrachado, que coagula e veda os furos. Em troca, o sistema tubeless promete mais rolagem dos pneus e uma grande redução nos “pinch flats” ou “mordidas de cobra”, furos comuns quando batemos a roda forte e ela cria pequenos cortes na câmara, dois furinhos com a aparência de uma dentada de serpente. O sistema é tão bom que, com os pneus que eu estava usando, WTB Venture 47mm, em milhares de quilômetros eu não tinha furado nenhuma vez. É comum o furo demorar um pouco a selar, então enchi o pneu e rodei um pouco, eu não via ar saindo e quem sabe ele teria selado? Trinta segundos na bike e o pneu baixou. Agora ainda um pouco cheio, tentei encontrar a saída de ar. Parecia vir da borda de um cravo lateral, mesmo lugar onde tive meu único outro furo com tubeless. Montei a agulha com uma espécie de barbante que usamos para tapar os buracos nestes casos. Na hora de espetar, não saia mais ar nenhum dali. Guardei tudo, enchi o pneu de novo e notei que a lateral estava um pouco dilacerada, gasta pelo uso ou por eu ter rodado com o pneu muito baixo. Mas eu senti tão claramente quando o pneu baixou, o que pensar desse estrago?

Antes de ir para o Bikingman, eu pensei muito em instalar pneus novinhos. Estava com 2 pares em casa, 1 par deles também WTB Venture e diferente do que eu estava apenas pela lateral, preta. A lateral preta é um pouco mais pesada e protegida. O que eu tinha era “tan”, meio creme, mais leve porém menos protegida.

Esses pneus tinham sido tão bons, e ainda tinham cravos, mesmo eles estando mais gastos. Cheguei a perguntar a opinião de amigos experientes com aqueles pneus, e eles achavam que dava para usar os que eu já tinha no Bikingman. Eles não podiam antever as condições da prova quando eu perguntei. Já eu tive até uma hora antes da largada para trocar. De fato, levei um pneu novo para Taubaté e deixei na mochila.

Montei na bike e em segundos notei que estava vazando de modo intermitente. Parei logo, girei o pneu, coloquei meu peso em cima dele e entendi que o ar estava escapando pela lateral, onde o pneu encontra a roda. Ele provavelmente teria destalonado, ou seja, desencaixado da roda. Esse encaixe é fundamental no sistema tubeless.

O jeito agora seria reverter para o sistema de câmara. Eu carregava duas comigo. O tempo tinha mudado e o Sol ia ganhando força. O lugar era pouco sombreado e não oferecia um bom ponto para apoiar a bicicleta. Virei-a de cabeça para baixo, tirei a roda traseira. Seria apenas a segunda vez que eu desencaixaria um pneu tubeless.

Já minimamente escolado, não tive dificuldade em puxar as bordas do pneu para o centro das rodas. Notei entretanto que as laterais dos pneus estavam colando umas nas outras. Esses pneus de performance são diferentes dos que conhecemos, são muito mais macios. Mas aquilo era estranho para mim. Precisei tentar muito e até enfiar uma espátula entre os lados do pneu para descolar, aquele líquido selante estava um Super Bonder, mas depois de vários minutos e muita grosseria, digamos que consegui. Tirei o pneu da roda e escoei o líquido selante.

Tirei uma câmara da caixa e me lembrei que seria a primeira câmara que eu instalaria para aquele diâmetro de roda. Bicicleta parece simples, mas é uma taxonomia darwiniana de tradições e improvisos perenizados. Para rodas, o tamanho mais comum em bicicletas de performance é o 700c, ou 29 polegadas. A minha bicicleta não dava conta de pneus mais largos com esse diâmetro de roda, portanto eu transicionei para as rodas 650b, ou 27,5 polegadas. São rodas muito menos comuns hoje em dia, e seus pneus bem mais difíceis de encontrar também. A consequência é que muitas vezes as câmaras de ar para rodas 650b são também difíceis de achar, mais ainda para determinadas larguras de pneu. As larguras podem ser expressas em milímetros (47 no meu caso) ou polegadas quando o pneu é mais largo ainda, caso das mountain bikes.

Olhei na caixa da câmara: 27,5 polegadas de roda e 1,9 polegadas de pneu. Fiz a conta toda errada mentalmente e me preocupei, achando que a câmara era muito larga para o pneu. Mas era a que tinha, então enchi ela um pouco, encaixei dentro do pneu e comecei a encaixar esse conjunto dentro da roda. Uma vez semi-encaixado, o procedimento é esvaziar a câmara, encaixar o pneu e apenas então encher a câmara totalmente. Essa parte de encaixar foi fácil. Na hora de encher, por mais que eu bombeasse, o pneu nunca ficava cheio o suficiente.

Eu estava nessa labuta já havia uns 20 minutos. Pensei que talvez tivesse furado a câmara na hora de encaixar o pneu, algo que já fiz antes em outras bicicletas. Tirei a câmara. Enchi a câmara fora do pneu. Não achei furo. Peguei a segunda câmara e na hora de encaixá-la dentro do pneu senti algo estranho no dedo. Caralho. Tinha um grampo no pneu. Os tubeless são tão bons que é comum achar diversos grampos e espinhos quando abrimos um pneu. E eu tinha esquecido totalmente de verificar por dentro o pneu antes de colocar a câmara. Bom, o jeito era fazer isso agora. Dedilhei o pneu inteiro e ainda achei um segundo arame. Encaixei a segunda câmara e enchi um pouco, mesmo processo da primeira.

Nessa hora chegou o carro dos “Race Angels” da corrida. Cátia, Renan e Kleber. Eles vão tirando fotos dos atletas e se certificam que nada muito ruim esteja acontecendo. Fora isso, a ideia era não interferir.

Nessa hora eu já estava com a cabeça meio ruim. Admitindo para mim mesmo a sequência de erros bobos, e ainda sem ver uma saída. O caminho era fechar aquele pneu, encher, e torcer para dar tudo certo. Já angustiado, tive uma dificuldade incrível em fechar o pneu. Nessa hora chegou o Bruno Cardoso. A coisa estava tão ruim na minha cabeça que eu mesmo preferi abstrair um pouco e dar umas risadas com a turma, contando o que tinha sido a minha noite. Eles riram. Eu tive que rir junto. Aquilo não era o fim do mundo.

Cléber, Renan, Edu e Cátia rindo do meu sofrimento.

Incrivelmente, tudo aconteceu igual com a segunda câmara. Não fazia sentido. Tudo bem a câmara não ser a mais adequada para aquele pneu, mas encher tão pouco? Meio distraído até, ou tentando não passar para o lado de lá das regras da prova, o Bruno falou de si pra si que uma vez algo parecido aconteceu com ele, e a causa era a bomba muito seca por dentro. Surgiram duas maneiras de testar se era isso: a primeira era encher o pneu o máximo possível, fechar rápido a válvula, e ver se a pressão se mantinha. Enquanto eu dava um tempo para esperar o resultado do primeiro teste, o segundo teste foi simplesmente bombear e puxar a bomba para trás com o dedo no bico, e sentir o fluxo de ar. Inacreditável, a bomba estava roubando ar nos movimentos contrários.

Abri a bomba, passei óleo por dentro e comecei a bombear. Todos partiram e fiquei sozinho. O pneu estava enchendo, mas ainda com bastante perda de ar. Passaram por mim alguns ciclistas. Vários pararam um pouquinho. Certa hora um deles perguntou o que estava tão difícil ali. Ao terminar de responder, vi uma bomba de ar no meu pé. Ele me olhou querendo dizer “olha aí, vê se é isso mesmo”. Era. O pneu ficou cheio bem fácil, minha bomba de ar tinha me deixado na mão.

Peba na mecânica — nunca mais.

Guardei tudo e saí dali um pouco desolado. A prova tinha regras que eu tinha acabado de descumprir. Não sou perfeito mas também não sou desonesto. Independente de qualquer coisa eu tinha que sair do Inferno de Vargem, mesmo se eu abandonasse ali por quebrar a regra. Eu era responsável pelo meu transporte, o Bikingman só resgata em caso de emergência.

Simplesmente segui o caminho e finalmente, com mais de uma hora e meia perdida, passei por Vargem Grande. Nas cidades e vilas o caminho não precisa seguir a rota exata da prova, então segui por fora da cidade. Estava sem apetite e querendo pensar no que fazer, e sabia que teria alguém da prova na única lanchonete local.

Passei por Vargem e comecei a subir. Percorri não mais que 1 quilômetro quando comecei a ouvir um ruído estranho e recorrente. Quando acontece isso, a gente para de pedalar. Se o som parar junto, o barulho tem a ver com pedais, pedivelas ou eixo central. Se o barulho continuar, provavelmente tem algum problema nas rodas, freios ou pneus. Parei de pedalar, o barulho continuou. Desci da bike, girei o pneu da frente. Nada. Girei o pneu de trás. Jesus. A roda sem um raio tinha empenado tanto que estava raspando forte no quadro da bike.

Não me lembro disso ter acontecido comigo antes. Menos ainda com um quadro de carbono, frágil a esse tipo de atrito e acima de tudo bem caro. Eu nunca tinha alinhado uma roda na vida. E na verdade sequer tinha trazido uma chave de raios, ferramenta para isso.

Pensei na lanchonete de Vargem. Ali tem internet. Eu podia ligar para alguém, ver tutoriais ensinando alguma solução. Voltei 1km e pouco bem devagar.

Ao chegar na lanchonete do Jonathan, me deparei com boa parte do Bikingman. Pelo menos 10 ciclistas mais a equipe que tinha me encontrado antes. Eles me dão as boas-vindas, comento sobre as novas agruras na minha bike. O pessoal sugere que eu coma qualquer coisa, já era hora do almoço. Pra ficar pensando melhor, porque eu estava muito triste.

A lanchonete tinha virado uma oficina de bicicletas. Alguns trocando pastilhas de freio, outros tentando alinhar rodas, quase todos fazendo isso pela primeira vez. Naquele momento ficou claro que a regra tinha se flexibilizado um pouco, porque todos trocavam informações, e até a equipe de Angels tentava dar uns toques. Não é que uns estivessem arrumando as bikes dos outros, mas uma ferramenta ou outra era passada, e principalmente informação. A prova vinha sendo tão difícil, tão mais difícil com o mau tempo do que seria em outras circunstâncias, que eu achei bastante razoável essa leniência. Depois vieram muitas histórias mais de pequenas ajudas, que foram oficialmente toleradas pela organização.

Pedi um PF de bife e sentei do lado da roda. O que fazer? O Renan me pergunta se eu trouxe chave de raio. Renan veio como mecânico da Drop, loja de bike de São Paulo parceira da prova. Magro, um pouco mais alto que eu, de olhos verdes e bondosos, o Renan exala calma. Respondo para ele que não, não trouxe chave de raio. Renan pede para eu mostrar minha multiferramenta. Mostro minha Crankbrothers com 17 funcionalidades, recomendada meses antes pelo Ernesto. Renan aponta uns buracos em algumas das chavinhas, e diz com paciência comigo: isso aqui são chaves de raio, deve ter a do seu tamanho aí. Renan segue me passando os princípios de como alinhar. É um jogo de empurra-e-puxa, de equalizar tensões. Parece difícil mas não impossível. Já estou me animando quando ele aponta para outro lugar da roda: você já viu isso aqui?

Não, eu não tinha visto. O pneu tinha rasgado, desfolhado. Imagine o pneu como um pano fino coberto de borracha dos dois lados, um sanduíche onde o pão é borracha e o queijo é um tecido. Um pão, quer dizer, um lado da borracha, soltou ao longo da roda por uns 10cm, com uns 4cm na transversal. Foi tão difícil olhar para aquilo quanto para o machucado de um filho.

Pneu rasgado depois de tantas aventuras.

O almoço chegou, consegui comer metade mais um refrigerante. A coisa estava tão enrolada na minha bike que eu até relaxei, meu humor melhorou. Eu não tinha ideia se era possível rodar com aquele pneu, qual o tamanho do risco. O caminho até Ubatuba e uma boa loja de bike incluía a descida da serra, 8km muito inclinados, escorregadios e coalhados de carros.

Eu tinha uns manchões comigo. Manchão é um talo feito geralmente de plástico, que podemos colocar por dentro de pneus cortados e rodar. O que eu tinha, no entanto, não era um corte, e a parte exposta era a de fora. Eu nunca tinha passado por mais esse problema e não tinha base para avaliar.

Com o Jonathan da lanchonete comecei a telefonar para um mecânico de motos da vila e em paralelo para alguém com carro que estivesse disposto a me levar dali. Passam uns 10 minutos sem retorno de ninguém e chega um carro. Um carro com um ciclista dentro. Era o Joab. Joab tinha tido problemas sérios com a bike no Inferno de Vargem na noite anterior. Ele levou umas 14 horas parado na prova, tinha ido a Ubatuba buscar ajuda. Agora ele estava ali, sorridente, animado, e preparando suas coisas rodeado das sacolas de supermercado que usa para agrupar os itens que leva. Joab estava mais uma vez honrando o seu apelido: Zé Sacolinha.

Cumprimentei o motorista do Joab e perguntei: André, quer emendar mais uma aventura dessa? Sem hesitar, André estava dentro.

Oficina do Sapão

Antes mesmo de sair eu mandei uma mensagem para o Vini. Agora não adiantava mais eu ir para Ubatuba. Eu até liguei para as lojas de Ubatuba, mas nenhuma tinha pneus para a minha roda. Previsível, eu precisei comprar pneus importados com a ajuda do próprio Vini, meses antes. Falei para o Vini que minha solução era buscar o pneu que eu havia deixado de reserva em Taubaté. Perguntei se teria alguém no hotel para me dar acesso à minha mochila, e se na regra isso seria permitido. Vini respondeu que teria jeito de pegar o pneu, eu poderia continuar e ser Finisher caso completasse o percurso no tempo, mas estaria fora da classificação da corrida.

As últimas 18 horas tinham sido muita coisa para mim. Eu tinha uma hora, talvez 90 minutos até Taubaté. Precisava fechar os olhos e meditar. Saber que estaria fora da corrida me desanimou. Passear a gente passeia sempre. Por mais que eu viesse a chegar em último, eu tinha entrado no espírito da corrida e queria continuar na corrida.

Tentei dormir mas não consegui. Perguntei para o André como ele tinha ido parar naquela confusão. André é de Ubatuba, pedala e tem um lindo trabalho de paisagismo e jardinagem. Ele adora acompanhar ciclismo de longa distância. André hospedara Léo Pedalando Pelo Mundo e Joab quando eles fizeram o reconhecimento da prova. Ao saber que Joab estava em apuros, lá foi André ajudar. Ele estava blogueirando a prova, e parecia estar curtindo muito.

Quase chegando em Taubaté, meu ânimo, e talvez loucura, voltaram. E daí se isso é corrida ou não? Esse trajeto é tão lindo, vai parar aqui? Decidi que se eu achasse uma oficina aberta e disposta a me atender naquelas quase 5 horas da tarde, eu iria voltar ao Inferno de Vargem.

Achei. Era a Oficina do Sapão, profissional conhecido e experiente da área. Ele me garantiu que tinha jeito. Como todo o mundo do ciclismo no Brasil, ele tinha ficado sabendo do Bikingman e não ia me deixar na mão. Corri para o hotel atrás do pneu que deveria ter estado comigo na bicicleta desde a largada. Deixei o pneu no Sapão. Voltei para um banho cortesia do Anderson, que tinha abandonado mais cedo. Bati a cabeça no box do banheiro. Eu estava zureta legal mesmo.

Voltando ao Sapão, testei a bike cuidada pelo Bruno, que deu um show de mecânica. A bike tinha ressuscitado. Antes de partir comprei alguns itens: uma bomba de ar evidentemente, e as luzes traseiras que a loja tinha disponíveis, porque eu vinha muito inseguro com uma das minhas luzes falhando. Elas eram bem fraquinhas, para a cidade e olhe lá, mas eram as únicas disponíveis.

Com André e Sapão. Muito grato a eles e ao Bruno que ressuscitou minha bike.

Compramos comida numa padaria e me vi anoitecendo na rodovia Oswaldo Cruz. Eu ia sim para os últimos 13km do Inferno de Vargem.

O tempo foi piorando. A Serra do Mar é uma parede para o vento e um ímã de chuva e nuvens. André dirigindo a mil, na prova comigo. Meu lado do vidro um pouco sujo, André comendo acostamento. Sou muitíssimo grato ao André e ele foi um verdadeiro anjo para mim. Ao mesmo tempo confesso que carreguei comigo esta experiência na neblina e chuva para o que estava por vir.

O troféu de participação da prova: a Pastilha de Freio no Alumínio.

De Volta ao Inferno de Vargem

Finalmente de volta a Vargem. Difícil de acreditar quantas vezes já cheguei nesse lugar meio remoto. Eram umas 8 e tanto da noite, fazia um pouco de frio. Com a ajuda do André peguei todos os meus pertences e montei tudo. O último item a encaixar era a luz traseira. Fui na minha luz boa. Apertei o botão. Nada. Mais uma vez. Nada. Não era possível.

Semanas antes, outra luz dessa queimou depois de um brevet de 300km misto. Ela é da Bontrager, modelo Flare RT. Funcionando ela é excepcional, você é visto a 2km de distância numa reta. Minhas luzes duraram uns 10, 11 meses. Usei muito. Mas agora era a segunda a me deixar na mão.

A única solução era usar as luzinhas que comprei em Taubaté. Fraquinhas mas funcionavam. Respirei fundo, agradeci e abracei o André, e fui.

Os 13km finais de terra são de muita subida. A chuva bem fina e a neblina persistiam, e eu perdia tempo nas poucas descidas. Levou bastante tempo mas nenhuma surpresa aconteceu. Fui avistando uma casinha aqui, outra ali, até que vi a luz mais forte do posto de gasolina da rodovia Oswaldo Cruz. Desci da bicicleta, celebrei o fato de ter conseguido sair de alguma forma do Inferno de Vargem.

Agora eu teria uns 30 ou 40km sempre muito exigentes na Oswaldo Cruz, mais a perigosa descida da serra. Eu teria até 8h da manhã pra chegar a Paraty no tempo de corte, e nem em Ubatuba eu estava. A neblina era densa e a chuva fina parecia mais forte quando eu pegava velocidade. Eu sabia que os carros não me veriam se eu ficasse na pista. À noite, com visibilidade, a gente pedala mais na pista do que no acostamento, porque consegue ver os faróis vindo por trás a uma distância grande. Essa noite seria diferente, eu teria que ficar no acostamento sujo e escorregadio de folhas, galhos e chuva. Meu rendimento era proporcional ao que eu enxergava ao meu redor.

Com a adrenalina mais diluída depois de Vargem, e ainda tendo que manter toda a atenção do mundo, meu nível de energia mental estava ficando baixo. Tentei ouvir um audiolivro, mas a atenção não se fixava e eu ouvia menos a estrada. O que eu fazia mais era pensar na minha família, e se aquele risco que eu estava correndo não ia ficar alto demais. Acho fundamental ter sempre uma margem de segurança na vida. Com o tempo, à custa de quedas da bike, vamos aprendendo que o corpo pode parecer pronto para seguir, mas se a mente está cansada o resto fica comprometido. Erros aparentemente bobos podem nos machucar. Vamos descobrindo sinais, instalando sensores no nosso corpo e comportamento, mecanismos de defesa.

Quase todos os acostamentos, pelo menos no Brasil, ficam em um nível abaixo da pista de rolagem dos carros. Não sou engenheiro civil, imagino só que seja para a água da chuva escoar. Na Oswaldo Cruz esse degrau existe também. Pedalando, passamos do acostamento para a pista com um leve salto, evitando que a bike patine no degrau e nos derrube. Me lembro que o próprio Axel, criador do Bikingman, caiu dessa forma no reconhecimento desta mesma prova. Um detentor de recordes mundiais de ultradistância, num acontecimento com causa simples de explicar mas consequências potencialmente desastrosas.

Notei que passei do acostamento para a pista sem me lembrar do degrau. Isso era novo para mim, não é normal. Respirei fundo e prometi para mim mesmo ficar mais atento. Poucas centenas de metros além, mais uma vez esqueço do degrau e a bike patina, um pouco só. Mas é o suficiente. Eu não tinha condições de atravessar de Ubatuba para Paraty naquela madrugada, não com a cabeça desgastada, na chuva, neblina e sem boas luzes traseiras.

Não se abandona um prova de ultra à noite. O Sol nasce e tudo melhora, nós melhoramos junto. Mas o ponto de controle de Paraty fechava às 8, e na melhor das situações eu precisaria de 4 horas para chegar. Isso saindo de Ubatuba. Ainda tinha a serra para chegar em Ubatuba e, cereja no bolo, eu sentia as pontadas de uma diarreia no horizonte. Eram 23:45h. Durante a madrugada, com chuva, neblina, luz muito fraca e a cabeça exausta, era muito perigoso.

Escolhi abandonar. Eu desceria a serra sem pressa alguma. Segurança máxima. E assim fiz. Naquele momento o emocional segurou, todos os desafios que passei ainda estavam ali ao meu redor para me lembrar os motivos da minha escolha.

Cheguei na base da serra, a 6 ou 7 quilômetros do centro de Ubatuba. Uma descida longa e suave vai se transformando em um trecho plano. Deixei a bicicleta ir sem a força dos pedais. Estava já bem lento quando ouço, e logo vejo, um cachorro disparando atrás de mim. Na prova eles tinham me deixado passar…logo agora? Seria um sinal de que eu precisava mesmo abandonar? Pela velocidade que eu ainda carregava, resolvi pedalar forte e me livrar dele. O bichinho estava resolvido, ele acelerou também. Desci marcha. Ele não desistia. Precisei dar um sprint bem mantido. Pedalei forte mesmo. Minha musculatura estava muito bem, articulações, joelhos, bunda, mãos. Tudo ótimo. Essa força de agora, seria um sinal que eu devia continuar? Com o cachorro desistido, mudei para um marcha mais leve. A corrente foi toda e prendeu entre o cassete e o quadro. Pedalar para frente ou para trás ia quebrar a bike. Seria um sinal confirmando que era hora de pensar em novas aventuras? Ficar pensando muito em sinais é que sinaliza que a gente está ruim da ideia. A decisão é nossa, às vezes fortuita e um pouco aleatória, mas sou eu no comando. E eu já tinha decidido. Pensava, como pensei muitas vezes este ano, no que ouvi do Fred e do Nuno no começo do meu primeiro treino: “não completa o treino. Se você completar o treino, na hora da prova vai ter menos força de vontade de concluir. Vai até Queluz e volta pra casa.” Isso conflitava com o meu caminho óbvio de ir lá e tentar logo. Eu dava razão a eles, mas precisei completar. Eles estavam certos sim, até porque se eu não tivesse completado o treino, provavelmente teria arriscado menos na corrida. Mas tudo bem, eu aceito a maneira que as coisas aconteceram. Parei num local com muita luz para ver a corrente, ainda longe do centro. Tirei com cuidado a corrente do lugar errado. Olhei ao redor. Aquele lugar iluminado era um camping e pousada. Logo vi alguém na recepção, peguei um quarto, avisei a organização que minha prova ficava por ali, tomei um banho, senti o intestino reclamar, e fui dormir.

Outras maneiras de continuar

Durante a madrugada acordei 2 ou 3 vezes para ir ao banheiro. Diarreias acontecem muito em esportes de resistência extrema. Na prova, pelo menos 10 ou 20 pessoas passaram pelo aperreio. Não era a minha primeira nem segunda vez. Descarto ter sido algum alimento estragado. Às vezes penso que a lama que suja muito as garrafas de água pode causar isso. Me lembro entretanto de uma viagem que fiz com mochila de hidratação e sem chuva, ou seja, sem sujar o lugar onde bebi líquidos, e mesmo assim terminei com diarreia. Dizem que mesmo comer a poeira tanto tempo pode ser o suficiente. Talvez. A literatura dá conta de que o mero esforço prolongado altera a circulação sanguínea, o intestino perde prioridade de fluxo e a comida passa sem ser tão bem absorvida. O fato é que não tive cólicas nem fraquezas, tive apenas a desmoralização de não confiar no meu esfíncter.

Acordei de manhã indo ao banheiro de novo. Mas não estava sem apetite. Tomei um bom café da manhã, e às 6 recebo mensagem do Vini. Fiquei confuso, porque ele aparentou não saber da minha desistência. Confirmei para ele. Ele respondeu que ainda “dava para seguir”. Na hora fiquei mais confuso ainda, como eu iria em menos de 2 horas até Paraty? Em seguida presumi que poderia haver algum tipo de leniência com o tempo. Se foi isso, até agora eu não soube, e também não quis me embrenhar nessa possibilidade. Eu queria mesmo era ter feito a prova nos tempos certos. Corri meus riscos consciente, desta vez não obtive o retorno que queria. Mas já tinha muitos novos aprendizados, além de uma lista de novas coisas em que vou me desenvolver. Mecânica da bike, gestão do sono, equipamentos, pedalar cada vez melhor, nutrição, situações específicas de provas de aventura. Esta foi apenas a minha primeira corrida maluca.

Voltando para o quarto da pousada, meu plano já era voltar para Taubaté. Eu tinha virado a chave, zero amargura e muita vontade de aproveitar aquele tempo e aquela atmosfera. Iria curtir a chegada dos amigos, buscar minhas coisas também, e voltar para casa apenas quando tudo tivesse terminado, com a galera do Cascalho Carioca.

O fato de meus problemas mecânicos terem terminado de modo algum significava que os problemas dos camaradas que seguiam em frente tinham terminado também. Não deu 5 minutos e chega uma mensagem do Diego: “meu freehub está travando às vezes, estou saindo de Cunha e estou preocupado”. Freehub é o rolamento e também o mecanismo de transferência de força na roda traseira. Sem ele, nada acontece. Essas peças são muito específicas para cada roda, difíceis de encontrar por aí.

Diego tem praticamente a minha altura. Na hora pensei em levar minha bicicleta para ele. Escrevi para o Vini perguntando se isso seria admissível. Sim. Ele perderia a classificação na corrida mas seria considerado Finisher. Camiseta, medalha, foto, palmas e festa. E, como disse o Vini, “vai ser uma puta aventura”.

Passei mensagem pro Diego. Nesse meio tempo ele falou que a coisa estava piorando. Ele ia tentar voltar de carona para Cunha e tentar a sorte lá. Em paralelo tentei me informar sobre oficinas em Cunha e liguei para a Trilha Norte em Ubatuba. Eles não tinham o freehub. Me passaram para o Landão, mecânico. Falei “oba Landão, aqui é o Gustavo do Bikingman, alguns meses atrás você deu uma salvada na minha bike enquanto eu puxei um ronco na sua oficina, lembra?” Ele: “oba, lembro!” Perguntei se ele não conheceria alguém disposto a colocar minha bicicleta e eu num carro e me levar até o Diego, e quem sabe depois me deixar em Taubaté.

Nem 3 minutos depois recebo mensagem do Doval. Ele estava dentro. Corri para arrumar minhas coisas e pagar minha estadia. Antes de acabar, lá estava ele.

Doval é fera da bike, adora MTB. Apesar dos seus 50 anos, aparenta 32. Ele disse que pensou em se inscrever no Bikingman mas, como a prova foi adiada, ele acabou deixando o assunto de lado. Bom meu querido Doval, bem-vindo ao Bikingman.

O caminho a se fazer não seria outro senão o caminho exato da prova. Rio-Santos até Paraty. Subida Paraty-Cunha. Ali comecei na encontrar a rarefeita caravana. Primeiro, ou último, o Gabo, que tinha chegado a Paraty em estilo épico, superando seu cansaço e problemas intestinais. Agora ele ia empurrando sua bicicleta. Ele disse que estava melhor. Seguimos. Cruzamos Nilton César, que tinha saído de Paraty de madrugada ainda, apenas para ver sua corrente quebrar no escuro. Voltou a Paraty, consertou, encarou de novo a subida tão vertical. Chegamos ao topo. Descendo, encontramos Bruno Cardoso, Jéssica e Adriano almoçando. Apesar das expressões cansadas e dos equipamentos castigados, tudo tranquilo com todos. Fomos em frente.

Acabei emprestando Garmin, power bank, óleo de corrente e alguma outra coisa para os amigos precisados. Até celular deixado para trás transportei para o dono. Passamos por Willians desmaiado em um boteco diante de meia garrafa de 2 litros de Coca-Cola. Entrei na bodega em silêncio para tentar um wi-fi, sem querer incomodá-lo. Olhando para o Willians, o velhinho no balcão me pergunta: o senhor é da equipe de resgate?

Willians Marcolongo. Metodologia única no ultraciclismo.

Demorou muito tempo até alcançarmos o Diego. Mesmo de carro, é muito chão. Em Silveiras emparelhamos com ele e Rodrigo Pretola. Diego estava sorridente, quase zen. Alguém em Cunha abriu o freehub e simplesmente tirou metade das engrenagens. Ele ia seguir com a bike dele, agora era torcer para ela segurar a subida de Itatiaia, a mais longa do Brasil. Rodrigo ia sem câmbio dianteiro. Para trocar de coroa, só descendo e mexendo na mão mesmo. Esse calvário, por 10km já seria difícil de aturar. Ele seguiu assim por centenas de quilômetros.

Ainda encontrei Fred em Queluz, descansando no fim de tarde para só no dia seguinte encarar Itatiaia e tentar fechar a história. Boa ideia, ele tinha tempo.

Cheguei no hotel em Taubaté no pôr-do-sol do quarto dia de prova. Apenas 5 ciclistas tinham chegado. Fernando Zogaib tinha dormido menos de duas horas e precisado de 66 horas para vencer. Juliano “Rider” Gerhke chegou 40 minutos depois. Léo Pedalando Pelo Mundo chegou em menos de 80 horas. Atuaçōes impressionantes.

Muito se falou das alucinações que o Zogaib teve durante a prova, enxergando castelos onde certamente não tinha, entre outras visões. A coisa é séria. Desta vez não tive alucinação, não deu tempo. No treino completo, na quarta noite uma espécie de losango de luz apareceu no pé do morro ao meu lado. O losango foi crescendo na minha direção, eu numa descida. Cresceu, cresceu. Era um gigantesco balão, e vinha cair em cima de mim. Desviei muito assustado. Mas não, era apenas o farol de um caminhão rebatido na encosta. A “alucinação” mais doida mesmo eu tive 3 dias depois de voltar da prova: estava deitado de férias numa cadeira de praia, anoitecendo. Minha esposa Stefania saiu dali para tomar banho. Dormi pesado. Acordei num breu total. Olhei para o lado e vi uma pessoa dormindo do meu lado. Achei que era o Diego e fui acordá-lo para a gente retomar a corrida. Sim, 3 dias depois de ter voltado de Taubaté. Custou eu entender que era a Stefania de volta do banho.

Voltando a Taubaté, o primeiro que vi chegar foi o Bruno Rosa, em sexto lugar. Segundos antes, de carro, chegou Angie “Panchita” Ramirez. Ela estava inconsolável e chorava bastante, sendo cumprimentada e abraçada por todos. Suas pernas raladas e roxas davam uma ideia do que ela deve ter passado. Ao lado, era difícil entender o que o Bruno sentia. Provavelmente alívio. E alegria.

Perdi a chegada da Vicky, sétimo lugar no geral e primeiro no feminino. Vicky e Bruno são casados e chegaram tão próximos. Emocionante pra caramba.

Enquanto alguns chegavam, outros subiam Itatiaia. Flavio atacou a montanha na quarta noite de prova. Deu tudo certo para ele, mesmo com tanto sono. Na volta de Itatiaia ele manda uma mensagem falando o que viu: cruzou com o Mexerica debruçado em cima da bicicleta de um jeito muito estranho, tronco por cima do guidão e rosto quase na roda da frente. Flavio pergunta para o Mixirica se está tudo bem. Mixirica diz que sim. Flavio continua a longa subida, estão na parte final dela, na terra. Mais de uma hora depois, descendo no caminho contrario ele alcança Mixirica, que havia descido quase nada desde o último encontro. Aí Flavio sente que é melhor ver se está tudo bem. Finalmente Flavio consegue ver que Mixirica está pressionando um pedaço de pneu de caminhão no seu pneu da frente. Ele está completamente sem freio nas pastilhas, e improvisou um sistema de alta periculosidade: ele não segurava o guidom na descida mais longa do Brasil. Se te trouxer alívio, adianto que Mixirica sobreviveu à aventura, perdendo muito tempo e depois ainda pegando o caminho errado para Taubaté.

Mixirica não foi o único que se confundiu no caminho. O próprio Fernando errou um trecho próximo e sua vitória ficou ameaçada. Ele andou vários quilômetros na Dutra até se dar conta do erro e fazer meia-volta. Quase todo mundo pega uma bifurcação errada nessas provas, a diferença vem de perceber rápido e acertar. O filósofo e graveleiro Magnus, o “Maquinus” César, se perdeu enormemente no primeiro dia e gigantescamente no quinto, nessa levando junto um francês. Ambos perderam o tempo da prova. Maquinus parecia não se importar muito, e sim ter curtido o passeio. Não sei se o francês encarou o desvio com semelhante estoicismo.

Acordo para o quinto dia e vejo no mapa que o Rogério Moda estava chegando. Só eu estava acordado e fui eu que fiz uma entrevista improvisada. Rogério passou por mim perto de Vargem quando eu estava já puto da vida lidando com o vazamento de selante. Ele estava empolgado com o desafio da estrada de Vargem, e naquele momento não pude corresponder à altura. Agora sim, celebrei com ele sua realização. Rogério contou que fez a prova com toda a calma, dividiu em blocos de 200km e cumpriu à risca até Paraty. Uma vez no ponto de controle 2, digamos que ele fez um ajuste tático. Rogério foi jantar em um restaurante local, tomou uma garrafa de vinho com a Pati Volpato, voltou para a pousada e não conseguia dormir. Entre rolar na cama e rodar na estrada, Rogério optou pela segunda. Ele partiu para Cunha no meio da madrugada e não dormiu mais até o fim.

Luisinho carregou uma garrafa de cerveja até o topo de Itatiaia. Gênio.

Encontrei Luisinho que tinha chegado às 4 da manhã. No abraço ele cai em prantos. Luisinho enfileira provas de 1000km, até ele chorando aqui? Perguntei exatamente isso, ele agora meio rindo lembra do reencontro um dia antes com o Diego. Diego pedalando debruçado no guidom, Luisinho pergunta se Diego precisa de ajuda. Diego levanta o rosto chorando muito, uma foto 3×4 encaixada no seu ciclocomputador. Diego explica soluçando: “eu tô com saudade do meu filhooooo!”

Perto de meio-dia Flavio conclui a prova. Estávamos quase todos no restaurante a dois quarteirões e não vimos a chegada. Pena demais. O rastreador GPS às vezes fica atrasado, mesmo o Vini, que também estava conosco, foi ludibriado pelo sistema. Ainda assim, chegamos só 2 ou 3 minutos atrasados. O Flavio é a calma em pessoa, pelo menos externamente. Mesmo tão tranquilo, durante a próxima hora ou duas, lágrimas escorriam lentamente de seus olhos enquanto ele tomava uma cervejinha em pé ali mesmo na área de chegada.

No meio da tarde, o mundialmente conhecido “iiiiiirrrrrráááááá” de Duribbe, Diego Uribbe, Diegão ecoou pela esquina da Rua Doutor Emílio Winther, endereço do agora imortalizado hotel Gran Continental. Diego ainda teve a quenguice de terminar numa derrapada. Agora todo mundo tinha almoçado e já estava ali. A festa foi grande, numa montanha de abraços.

Aos poucos a festa da prova ia chegando ao fim com alegria de sobra. Não me lembro da ordem mas festejamos Fredão muito guerreiro, Joab, Rodrigo Pretola, a dupla Paulo e Tales (vencendo), Marco Teixeira, a dupla Liandro e Idan, o grande Junior “O Segredo É Girar” superando a dor e a febre, o milanês Massimo, grandes Pupo e Wisley chegando juntos, Holger Theisen, Mixirica surpreendentemente ainda vivo, Nilton Cesar, Wel, o monstro da tenacidade Willians Marcolongo.

Com Diego e Marco ainda suado da prova.

Na noite e madrugada chegaram, pelo menos, Bruno Cardoso, Jéssica Röpcke e Gabo. O tempo de prova se torna irrelevante quando consideramos as circunstâncias de cada pessoa ao mergulhar numa travessia dessa magnitude. Perdas familiares recentes, mudanças profundas de vida, crises existenciais – nada como 1000km feitos com a propulsão do próprio corpo para processar os verdadeiros desafios da existência com cada célula que temos.

A prova foi épica, inesquecível, e mudou, expandiu a vida de todos que estavam ali. A organização foi impecável em todos os sentidos. Agradeço ao Vini, Axel, Pati, Cami, Renata, Renan, César, Cátia, Cléber, Cedric, Didier, a alguns nomes que estou esquecendo agora e a todos os atletas.

Estava feita a história de cada pessoa que acordou bem cedo no dia primeiro de novembro de 2021 e às 5 horas da manhã largou no primeiro Bikingman Brasil.

Epílogo

Voltamos para o Rio no mesmo bonde que viemos: Flavio, Diego e eu. Paramos em um posto para almoçar com o Gabo, que viveu muitas histórias e tem outras tantas de mil aventuras.

Cheguei em casa, abraços e beijos na família, um jantar, uma boa noite de sono.

Acordei pensando em uma prova, um evento que eu vinha namorando seriamente havia meses. Tinha visto que a data de largada e o percurso foram oficializados enquanto eu estive fora de casa. É o Italy Divide 2022.

Abri o site para ver a rota. Largada marcada em Pompeia. Uma porrada emocional me sobreveio. Visitar Pompeia em 2017 foi uma das experiências mais impactantes que já tive. A prova segue subindo nada menos que o Monte, o Vulcão Vesúvio. Meu sangue virou lava. Do Vesúvio a Napoli e Roma entrando pela via Appia, quase 3000 anos de História. Moramos eu, Stefania e Olivinha em Roma. Próxima parada: Siena. Basta dizer que quase, mas quase mesmo, demos o nome de Siena para a nossa filha Aurora. A paixão das pessoas de lá pelo Palio, corrida de cavalos muito louca. Os times dessa corrida, chamados contradi, cada um representado por um animal e apoiado com tanta paixão quanto um time de futebol ou escola de samba. Florença, tão linda e próxima de Lucca, terra bela e amada em que vivemos, e meu bisavô nasceu. Bolonha. Mantova. Verona, cidade tão bonita, cenário de Romeu e Julieta. Para acabar, Alpes italianos em frente ao Lago di Garda, onde nadamos numa tarde de verão. Era um sonho ali quase me puxando, pedindo para ser realizado.

Confiro a data de largada: 23 de abril de 2022. Aniversário do meu pai. Chorei uns 3 minutos, sequei os olhos e fiz minha inscrição no Italy Divide.

Dez dias depois do final do Bikingman 21, abriram as inscrições para o Bikingman 22. Fui o primeiro a me inscrever.

PS: E eu nem falei do caminhão que EXPLODIU na estrada de Itatiaia e ficou ardendo em chamas umas 3 horas. Isso vocês perguntem pra quem esteve lá.

My Year in: Tech

I started out 2020 taking my first relatively prolonged vacations of the last 15 years or so: 3 weeks. Coming out of the first year of my twin children, the break was welcome.

To recap, I was working at Toptal’s core and had just finished recruiting a new team, having hired 3 new front-end engineers. I put myself in contention for a promotion to Engineering Manager. At Toptal this was a rarefied position. The company was about 600 or 700 people and only 4 EMs existed. They were opening 4 new spots. I was looking for a step forward, not necessarily associated with a title.

Almost parallel to that, a former colleague tweeted that his company, Circuit, was looking for people. I really love this guy, Filipe Alvarenga, so any company he’s working for must have virtues. I met Jack Underwood, one of Circuit’s founders and its CEO. I felt good about him and the company. It helped that Jack publishes monthly letters to the public about how the company is doing, and they seemed very candid.

Circuit provides technological infrastructure for last-mile deliveries. Think managing your daily routes if you are an individual driver, and also doing that in a team of dozens of drivers.

I was hired at the Team Lead level, same as I had been at Toptal. The idea was to expand the front-end headcount at Circuit and create a React team. When I joined, in the second half of March, the world had just been turned upside down by Covid. All plans at the company changed very quickly: despite the immense negatives of the pandemic, Circuit was in a position to help things and grow significantly, as deliveries exploded everywhere.

I operated as an engineer for the rest of the year. In my first 2 or 3 weeks I wrote an application where recipients of deliveries could track their shipments. It was relatively simple, and got shipped quite smoothly. That was the first application written in React at Circuit.

The company’s focus had shifted to really serving teams of drivers. It’s a natural progression from individual drivers, to teams, and eventually to enterprise.

Our back-end uses Firestore, a serverless product from Google, and there was work to do there after completing the recipient application. I shipped or helped ship several of these cloud functions, both for external and internal use. What was missing in our backend were tests. A colleague had just started writing unit tests in the repo. I spent weeks of off-time trying to learn how to properly test back-end functions in Firestore. The documentation is not helpful and I could not find good materials. So I pieced out the knowledge, tried things, and eventually got one version to work, then we all improved on it. I think this was our main achievement of the year, technically. Soon the tests spread out in the app, all colleagues were writing tests, and I believe we got a much more productive rest of the year with the benefits of serious test coverage.

After some work converting our internal admin panel to React, we took on the rewrite of SpeedyRoute.com, also in React. SpeedyRoute is an acquisition made by Circuit some time ago, originally written in CoffeeScript. We completely rewrote it in React, and now the UI looks a bit more contemporary too. Around then the decision was made to convert all our web applications to React, and to start the new ones in React as well, phasing out Ember.js.

At this point, we were in the last quarter of 2020 and we were ready to go back to the original plan for my joining Circuit. Jack invited me to lead the recruiting of 4 front-end engineers. It was great to be back doing interpersonal-focused work. The internal recommendations of engineers were very strong and this helped the process move quite quickly. We now have 3 hires and may close out the 4th soon.

The newcomers will start in the first few weeks of January, and we will spawn a team to rewrite our most important web client, Circuit for Teams.

The year was challenging, of course, but at work it did not feel proportional to a global pandemic. The culture at Circuit is driven but very balanced, the founders are sensible, very intelligent, and rational. They are always present, designing and coding along, so it feels they get a much more realistic sense of how things are progressing than if they were only doing management. And because they are working with everyone, it is just natural that we can talk frequently and issues get resolved quickly.

The company more than tripled its annual recurring revenue from US$3M to just over US$10M this year. There were next to no major bugs or incidents, and a lot got done during the year. Interactions with everyone were unfailingly pleasant and constructive.

I was the 8th person in the company when I joined, we are now 12 and, with the new team, will be at least 16 in the first quarter of 2021. It will be fun to help grow the company, help keep the good things that can be kept of the current structure, and also help add good things for it to scale nicely. We have reasons to be optimistic that Circuit will accomplish this.

TDD with Firestore functions emulator

Having spent time running tests inside and outside Firestore’s emulator, I learned that using the emulator is more than 50% faster.

Here is the latest flow we are using at Circuit. If you know of a simpler way, please let me know at gus [at] getcircuit [dot] com.

Basic version

firebase emulators:exec --only firestore 'jest'

You can replace jest with the runner of your choice.

Abstract the emulator call

Install scripty:

yarn add scripty

Add an entry to package.json:

{
  …
  "scripts": {
    …
    "test": "scripty"
  }
  …
}

Create a directory called scripts in the root of your project.

Create a file with path and name scripts/test:

#!/usr/bin/env sh

str="$*"
firebase emulators:exec --only firestore "yarn jest $str"

Allow computer to run this file:

chmod 644 scripts/test

Now you can run yarn test and add anything you would add to the command, like yarn test --watch, yarn test /path/to/test.file.

Enable connecting with a browser’s debugger

Add an entry to package.json:

{
  …
  "scripts": {
    …
    "debug": "scripty"
  }
  …
}

Create a file with path and name script/debug:

#!/usr/bin/env sh

str="$*"
firebase emulators:exec --only firestore "node --inspect node_modules/.bin/jest --watch --runInBand $str"

Allow computer to run this file:

chmod 644 scripts/debug

Add debugger to any line of your Firestore code.

Run yarn debug — you can also pass a filename to focus on it right away.

Open your browers’s developer tools.

Click on the green cube (Node’s logo):

This will open the debugger and you’re ready to step debug your code.

Simple tips for applying for a new development job

For several years, recruiting has been a part of my job in software. A few times I’ve been on the other side, looking for a job myself.

There are many low-hanging-fruit-type tips that can really make a difference when we look for a job. By making mistakes myself, seeing them made while recruiting, and by talking to colleagues, it’s now possible for me to list a few. Some may seem obvious to you — if you haven’t yet recruited, you’re in for a surprise over how common they are, and how much they affect the chances of someone getting a great job.

Learn about the company first

Before starting your application, spend no less than an hour attentively studying the company. Go to YouTube, try to watch videos involving top leadership. Read articles and learn about the people there.

Apply only to companies you care about

If you are in full application mode, apply to no more than 3 companies per day. Ideally 1 company.

If the company’s purpose doesn’t resonate with you, recognize the fact and move on.

Look at companies’ careers pages

Several companies, often the best ones, don’t advertise open jobs. They have their own careers pages and, relying on their reputations, will wait for applications.

For people who like to work remotely, Remotive’s company list has been helpful to a few people I know: https://remotive.io/remote-companies.

Don’t wait to apply

Once you’ve learned about a company and feel enthusiastic about it, apply immediately. In the global development market, good companies receive hundreds of applications on the first day or two after they post a job.

Apply to many jobs

While not applying to just any open job, do apply to as many of them as you truly like. Statistically, odds are low that you will be called for one given opportunity.

Start early

If I am suggesting you do not apply to too many positions each day, but to apply to many positions, by consequence I am suggesting you start early in your job search. Maybe practicing going through recruiting processes even before you need or want to do it can be ideal.

No spelling or grammar errors

Make it perfect in the language the company operates in. Pay someone, or a service, if needed. Great companies will quickly screen out applications that have language mistakes. By writing minimally well, expect to go to the top 10% of all applications.

Add a Github link to your CV

This is a huge differential. Prefer Gitlab or Bitbucket? Great, use your favorite. Don’t have public repos? Add repos of things you study, it’s perfectly fine. Make sure you add very good READMEs enabling visitors to run and test your repos.

Nothing like relationships

All the above may not be necessary if you have good relationships with former colleagues. You may be sought out before you need to look for a job. For this to happen, it is not enough to be very proficient at the technical part, people have to like spending time with you.

Git basics while typing less

Very short git commands

As computer programmers evolve in their craft, they increasingly identify repetitive tasks at all levels. One of the most basic levels is typing on the keyboard. Some programmers choose to invest effort and minimize typing. I am one of those people.

Git commands are among the ones I use the most, as listed in decreasing order with the number of times for each:

1241 gc
637 gco
583 v
419 git
373 cd
368 rm
316 mv
302 yarn
299 gb
247 gto
215 ga
213 c
191 gst
160
136 bundle
124 ©
115 mkdir
114 cp
106 npm
106 gt

If you’d like to see yours, you can run the following on the terminal: history | awk 'BEGIN {FS="[ \t]+|\|"} {print $3}' | sort | uniq -c | sort -nr | head -n 20

Please note that the number 20 at the end is the number of results to retrieve.

Back to my own history, you can see that:

  1. I use a lot of aliases
  2. Most of them are git-related, and that’s why they start with a g; gc is git commit, gco is git checkout and so on.

Recently I have taken this to the extreme, and so far the results have been excellent. Below are the commands I am able to run:

c (git commit or git commit -m, depending on the args passed)

p (git push)

a. (git add .)

b (git checkout -b)

The c function works for the following cases:

  1. c (will open the text editor for a long commit message)
  2. c “Your commit message” (acts as an alias for git commit -m
  3. c Your commit message (the one I love as you just type c plus the message, and it works)

While p and a. are calls with no args, with b you must simply add a branch name.

These are extremely simple improvements to the flow, and together with many others that I created or that I use from libraries, they make the path from brain to computer shorter and more pleasant.

To see how these are implemented, please visit this gist: https://gist.github.com/gusaiani/70736c970c2b2d4020006eb7dd31bc40

The commands in the gist which are not defined in this file come from oh-my-zsh plugins.

My Year in: Tech

I started the year of 2019 as a front-end developer at Toptal’s core team. Just a few days later, I was invited to be Team Lead for a brand new team.

My emphasis turned, again, to working with people. That was a delight and I fully embraced the opportunity to help build a team. We had a few company veterans enlisted to start the new team, all of whom I had not worked with before, and we needed to hire two more front-end engineers.

The first recruitment process was for an excellent React engineer. It was done very deliberately and unhurriedly, to make sure we raised the overall level of the team on the React stack. It took us a little over 2 months until we found a great guy, who has contributed a lot this year.

The second engineer was a gift to us, as he was initially hired for another team. Happy to say he’s also doing tremendously well.

We quickly became a real team. It seems we did a few things that helped: communicating a lot, admitting mistakes and ignorance openly and quickly, and being real human beings.

One teammate brought along the Personal Questions call from his previous team. This call has a simple structure: one team member asks one or two questions, personal as the name says, to everyone on the team.

The questions are as simple as “What was the best trip you ever took?”, or “What is your favorite dish?”. It’s up to the team to let this call become just a little window on who they are, or a huge gateway to people’s souls. Yes, it’s possible to cry while listening to someone tell you about their favorite food once they tell you the story behind it. The bond I felt with the team was immense.

Dedicating at least one or two hours per week of each team member’s time to building rapport makes a big difference, particularly in new teams. Next year I will work to learn more ways of doing that.

I made my share of mistakes. The one that comes strongest to mind is about having patience before giving feedback to people you may like personally but don’t think are doing a good job — especially when they are not reporting to you. Convincing people to change is hard enough as it is, doing it without mutual trust and knowing their motivations is likely to backfire.

Another lesson I was reminded of by a mistake of mine is the “no surprises rule”. It’s often hard to know, in advance, how sensitive some task or decision may turn out to be. Next time something I do starts to deviate too much from what was agreed-upon, I should remember to share that early on, and avoid surprises, because the surprise itself may make people react negatively to something fundamentally desirable, or I may have the wrong assumptions or decisions and other points of view will help me see that.

I stayed with the team for a total of 9 months, we launched a good chunk of the new application we were developing, and then I was enlisted to start a new team from scratch: to recruit every single engineer, and help recruit designer and product manager.

It was painful to say goodbye to a team I loved so much.

Soon it was back to recruiting, this time a few weeks of full-time effort, and we are still at it. We seem to be close to hiring two people, and have one more front-end and one more QA person to bring onboard on the engineering side.

This recent team switch gave me time to study programming after a several-month hiatus. I am focusing on new React APIs, from Hooks to Context and Suspense, as well as testing, TypeScript and, soon, Apollo.

I did continue to study the Elixir language source, something I’ve done for maybe 3 years now. This year I did relatively little of it. I love Elixir just as much as always, and am thankful for having learned so much from its community.

I plan to go multi-team as soon as I have a chance, be it in an Engineering Manager or CTO role. Thus I dedicated more time than ever to reading about leadership, management and communication, often with a big emphasis on tech. Especially for people who are new to management, I recommend The Making of a Manager by Julie Zhou.

A personal take on interviewing programmers

A few months ago some members of the team I lead at Toptal’s core team started interviewing programmers.

The fundamental questions that popped up were simple and deep: What should I look for in the interviewee? How do I know I should pass or fail the person?

I really like the priorities my own former supervisor, Timo Roessner, advocates: to look for—in decreasing order of importance—a team player, a good communicator, and a technically excellent person.

The person should ideally be very good at all 3 requisites. The main point, however, is deemphasizing technical wizardry in favor of interpersonal skills.

How to assess team-playing chops in a 90-minute interview with a coding challenge

Team-playing chops and communication chops seem intermingled, and in fact I believe one potentializes the other, but they can be assessed quite separately in software engineers.

As you facilitate a coding challenge or nearly pair-program with the interviewee, try to make it as close to the interviewee’s normal workflow as you can. Don’t use CodePens, have the interviewee use the editor or IDE of her preference. Apart from the technical things you need to evaluate her on, encourage her to use her favorite tools and procedures.

What you need to evaluate the candidate on is up to the needs of your company or team, but in general I prefer to give the candidate a wide-open small project instead of some algorithmic or procedural task. The reason is you will get a chance to role-play being the customer or Product Manager, and you can talk to the interviewee as such and see if she is able to conduct a dialog like this.

Calibrate, as you go along and get a sense of the candidate, how high-level or low-level it’s better to be. That is, is this person more concerned about the coding nitty-gritty or about what the entire project should do? Both are fine and necessary programmer inclinations, but the quicker you spot the candidate’s preferences, the quicker you can develop a rapport.

As the coding challenge starts, pay attention to the questions and shared thoughts. It should be clear to you, given some experience, if the candidate has mileage or a willingness to openly express thoughts. If they don’t say anything at all, probably this person will behave the same way at work.

Avoid, or delay, “helping” the candidate. Generally, in a coding challenge lasting 1 hour, I may interfere 1 to 3 times. But when you do, try to make it very meaningful and make it so that the proposed change of course really takes things in a different direction.

For example you propose the programmer develop a simple game. She starts by crafting the algorithm that will define if the game is over. As the interview goes past half its allotted time, and if the candidate has shown a good direction regarding the solution, propose she create the UI (if she is a frontend developer), or suggest creating a way to store a leaderboard (if she is a backend developer).

The way the candidate reacts to such proposals can be telling of a team player.

Also, very often candidates will do or say things that you don’t know anything about. Tell them you don’t know anything about that and see how they react. Do they explain it to you? Are they surprised? Do they convey a sense that they respect you less for that? But don’t pretend you don’t know something you know—you don’t need any trickery to interview people well.

How to assess communication chops

Assessing communication skills is a bit easier than assessing team-player inclinations. Start with the basics: can you even understand what the interviewee is saying? Often that is not the case. If and when you don’t, tell them that in a gentle way. This happens particularly often in international interviewing when spoken languages are not native to you or the candidate.

The opposite can happen: the candidate does not understand you. You should, of course, try your best to communicate clearly, and if the candidate still has a hard time getting what you are saying or asking, notice if they have the energy to ask you to clarify. If so, that is a good sign.

Being able to listen deeply is what differentiates an ok communicator from a good or great one. Does the candidate flow from what you are saying? In other words, can you notice them using and reshaping pieces of your discourse? Repeating things back to you transformed? Those are good signs. If they just respond things that seem unrelated to what you have been saying, then clearly this is a minus. More often things fall around the middle, and with time you will develop a feel for how good the candidate seems to be, plus the courage to use your intuition when the decision is not clear-cut.

How to assess programming chops

This is the easiest part if you yourself are a programmer, but it’s still challenging sometimes. Granted, it’s easy to reach a conclusion in extreme cases: if the candidate did really poorly or just brilliantly in the coding part.

When things fall more in the middle, which is by far the most typical, your skill can make a huge difference in the decision to say Yes or No to a candidate.

I always like it when a candidate writes, in human language, something like a list of things that need to happen in the program. For example, if the proposed task is to build a search user interface: to jot down that the screen has an input and a submit button, the user will type a string in that input, then press the submit button, and so on. This helps the candidate “think like a computer”, it allows her to expose her thought process to the interviewer and, if her assumptions are off-base, to know early. The worst that can happen is to end up with a little algorithm of what to code.

TDD, or anything similar to that, is a huge positive differential. It is a kind of planning ahead.

I must say it’s very rare that anyone uses TDD in interviews I run, and I’ve run a few hundred of them at the very least. It has never ever happened that a candidate wrote down point by point what should happen in the application.

Finally, good code architecture early on is one of the strongest signs that the candidate is good. If they refactor continuously, improve variable names often, and order things in their codebase without losing their train of thought, you are looking at a hire. And that’s why giving people much harder tasks than they will face in their work is typically not a good idea: you need to see how they can make code understandable to fellow programmers.

So if they start one file and fill it up with disorganized, commented out code and huge blocks of attempts, unless you asked them to do something too hard, in general consider this as a potential flag. But don’t get stuck to this: it’s not uncommon for great developers to seem quite sloppy the first 15 minutes in, and 10 minutes before the hour, to start deleting code and apply a final layer of improvements that leaves the code looking quite wonderful.

If you give the candidate a project that is larger than the hour you have to interview, something I support you do—as long as you set the right expectations, otherwise you will have a frozen person in front of you—, and you enabled the candidate to own the code in her machine, the bonus point is them continuing the project on their own. Until recently I sometimes suggested they do it. Nowadays I don’t even suggest that. If they have a way to reach me, they can do it if they want. I certainly take it as the strongest sign of interest in the part of the candidate if, hours or even a couple of days later, they get in touch with the completed project.

Participating in Daily Standups



Purpose of Daily Standups


You should leave a daily standup:

  1. More energized than you entered it.
  2. Aligned to be in contact after the daily with anyone if your or their main task needs discussion.
  3. Remembering everyone’s update.

Things outside of Daily Standups that can ruin Daily Standups

  1. If team communicates 1-to-1 a lot and not on shared channels.
  2. If people are tackling too many things at the same time.
  3. All basic management deficiencies.

How to prepare for a Daily Standup

Half an hour before the Daily Standup, stop for 5 minutes and:

  1. Decide what is the one initiative you will mention.
  2. Write it down in your own words.
  3. Edit that down to 280 characters.
  4. Include expected time to finish task at the end.
  5. Say it aloud.
  6. Improve the wording or delivery until you have a clear and memorable update.

How to decide what to mention in a Daily Standup

By decreasing order:

  1. Task you are doing that is most problematic.
  2. Task you are doing that you know someone can help you with.
  3. Task that is going well.

How to listen well in Daily Standups

  1. Keep a log of Daily Standups and make notes of every update.
  2. Come back to that log half an hour after the daily and read it again.

Trusting the Scrum Master in Daily Standups

If each team member delivers their update clearly, nicely and concisely, the Scrum Master will have time to:

  1. Ask about important items that were not selected by the team.
  2. Raise questions.
  3. Ask about extraordinary additions to people’s update.
  4. Align people for pairing on issues raised.
  5. Use the extra time for having a bit of fun and enjoying the team before it gets back to work.

My Year in: Software Development

The year of 2018 has been a wild ride for me. It started at EmCasa.com, the startup I described a year ago. We were in the process of putting out a successful MVP, engaging clients, becoming accelerated by Harvard University and closing out an excellent seed round with important investors. All this in just a few months.

Very quickly my job morphed from do-it-all (think product and CTO duties, plus co-founder responsibilities) to team-building. This was a highlight as I was lucky to bring in great people like Gabriela Seabra, Nathan Queija and Rodrigo Nonose, each respectively owning mobile, web frontend and backend. On the design side, Plau.co did great work.

For the first time I felt fully ready to create a digital company in style. The Elixir-React stack worked beautifully, we rolled out features fast and the development team became a cohesive unit very quickly.

Towards the middle of the year, as the company reached 14 people, it had become clear to me that there wasn’t a good cultural fit among the founders. It was one of those very painful decisions but ultimately not difficult to make when visions don’t intersect well enough: we parted ways amicably at the end of July and I went looking for a new job.

That month was tense for me. I knew I had a deadline to basically stop getting paid, my wife was 6 months pregnant with twins and I had nothing lined up as far as work.

I am part of Toptal’s network of freelancers and that was one of the main ways I tried to find the next thing. I found something that really interested me: they had posted an opening to join their Core Team. I applied, passed, and joined the team as a freelancer in August. 

The first few weeks were hard in a sense: I and two other developers coming from Toptal’s talent network had a kind of secondary status, without access to many tools. Luckily our teammates were extremely helpful and welcoming. In a few weeks we became official team members and got access to what the other engineers see.

My team works on Toptal’s public pages, from home to skill pages, basically everything a logged out user can access in the website. 

It’s been a tremendous experience for me so far, as it’s the largest organization I’ve been a part of in technology. Toptal is in fact the largest fully distributed company in the world today. As such, I work with people from all over the world, and that’s the part I like best. To do it from home is the cherry on the cake as my children are very young and being close to the family is priceless at this moment.

At my team I’ve experienced the most well-developed set of processes I’ve ever come across. The firm has reached a level of maturity that allows for very well written task tickets, a proper retrospective at the end of each sprint, interesting strategic discussions among executives, and work that has large-scale, immediate impact. On the other hand, I am very far from top strategic decisions and information, and this feels weird to me having run my own company for so many years.

To a very large extent, this was the year when, for me, technical concerns became secondary to human concerns. Sure, if you’re starting a product alongside just one other person, what tech stack exactly to choose is of paramount importance. In a team of 200 that’s much less important, as each person can focus on a narrower part of the work, and the human interactions can catalyze or hinder progress.

Thus, I gave myself the chance of observing all the teams in the organization: dialogs, processes and rituals. Whatever was visible to me, I tried to learn from. It wasn’t long before I got the opportunity to onboard newcomers, help interview candidates, conduct daily standups and interface with other companies. That’s not to say I didn’t study programming this year: I continued my deep-dive into the Elixir codebase, studied GraphQL, some more Elm, algorithms, some Python and a little bit of Natural Language Processing.

It’s much easier to paste some code or links to a framework and illustrate what goes on as a programmer. Human interactions seem to me much harder to communicate. A book that does a great job of explaining management applied to software is The Manager’s Path, by Camille Fournier. I read it this year and it very neatly sums up many things we learn the hard way, plus many others I simply did not know.

So this year was one in which I started out as CTO and ended-up as an individual contributor. But each experience has taught me a lot about management and leadership, which will be my way forward in technology.

 

Naive Investor, Episode 400

Today Naive Investor has hit episode 400.

If anything, a good excuse to post about it here.

Initially I went for posting every single episode in this blog, but pretty quickly the blog would become just a mirror of the YouTube channel.

A lot of learning has indeed taken place. That was the main goal. Along the way, people have sent me corrections, suggestions and encouraging messages.

At year end I will publish the update to the little (but growing) investing partnership I’ve been running rather informally for now, and which incorporates the knowledge gathered from the Naive Investor videos.

If you don’t yet subscribe to the channel, please consider doing so: https://www.youtube.com/c/NaiveInvestor

And here’s the 400th episode: